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HOMILIAS PARA O

PRÓXIMO DOMINGO


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sábado, 2 de abril de 2011

4º DOMINGO QUARESMA – A CURA DO CEGO DE NASCENÇA

 

HOMILIAS PARA O

 PRÓXIMO DOMINGO

O3 DE ABRIL – 2011

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DOMINGO QUARESMA – A CURA DO CEGO DE NASCENÇA

Introdução

 

1ª Leitura - 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Davi é ungido rei de Israel.

Leitura do Primeiro Livro de Samuel 16,1b.6-7.10-13a

Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel:
1bEnche o chifre de óleo e vem
para que eu te envie à casa de Jessé de Belém,
pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos.
6Assim que chegou, Samuel viu a Eliab e disse consigo
'Certamente é este o ungido do Senhor!'
7Mas o Senhor disse-lhe: Não olhes para a sua aparência
nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei.
Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as
aparências, mas o Senhor olha o coração'
10Jessé fez vir seus sete filhos à presença de Samuel,
mas Samuel disse:
'O Senhor não escolheu a nenhum deles'.
11E acrescentou: 'Estão aqui todos os teus filhos?'
Jessé respondeu: Resta ainda o mais novo
que está apascentando as ovelhas'.
E Samuel ordenou a Jessé: 'Manda buscá-lo, pois não
nos sentaremos à mesa enquanto ele não chegar'.
12Jessé mandou buscá-lo.
Era Davi, ruivo, de belos olhos e de formosa aparência.
E o Senhor disse: 'Levanta-te, unge-o: é este!'
13aSamuel tomou o chifre com óleo e ungiu a Davi
na presença de seus irmãos.
E a partir daquele dia o espírito do Senhor
se apoderou de Davi.
Palavra do Senhor.

Salmo - Sl 22,1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)

R. O Senhor é o pastor que me conduz;*
não me falta coisa alguma.

1O Senhor é o pastor que me conduz;*
não me falta coisa alguma.
2Pelos prados e campinas verdejantes*
ele me leva a descansaR.
Para as águas repousantes me encaminha,*
3ae restaura as minhas forças.R.

3bEle me guia no caminho mais seguro,*
pela honra do seu nome.
4Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,*
nenhum mal eu temerei.
Estais comigo com bastão e com cajado,*
eles me dão a segurança!R.

5Preparais à minha frente uma mesa,*
bem à vista do inimigo;
com óleo vós ungis minha cabeça,*
e o meu cálice transborda.R.

6Felicidade e todo bem hão de seguir-me,*
por toda a minha vida;
e, na casa do Senhor, habitarei*
pelos tempos infinitos.R.

2ª Leitura - Ef 5,8-14

Levanta-te dentre os mortos e
sobre ti Cristo resplandecerá.

Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios 5,8-14

Irmãos:
8Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no SenhoR.
Vivei como filhos da luz.
9E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade.
10Discerni o que agrada ao Senhor.
11Não vos associeis às obras das trevas,
que não levam a nada; antes, desmascarai-as.
12O que essa gente faz em segredo,
tem vergonha até de dizê-lo.
13Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz;
e tudo o que é manifesto é luz.
14É por isso que se diz:
'Desperta, tu que dormes,
levanta-te dentre os mortos
e sobre ti Cristo resplandecerá.'
Palavra do Senhor.

O CEGO FOI, LAVOU-SE VOLTOU ENXERGANDO.

 

Evangelho - Jo 9,1-41

Os discípulos perguntaram a Jesus: 'Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?' Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele."
            Para que o mundo soubesse que o Filho de Deus tinha e tem o poder de curar.  Assim como, do mesmo jeito, os mendigos existem não porque Deus seja mau, como muitos pensam. Mas para que nós possamos demonstrar a nossa caridade. Se não houvesse mendigos como poderíamos praticar  a caridade? Como então poderíamos ganhar a vida eterna?

Tem muitas pessoas perguntando o que os japoneses fizeram para merecer tamanho castigo. Terremoto seguido de uma Tsuname.  Acontece que os japoneses não são mais pecadores do que nós. Porém, é preciso lembrar as palavras do Mestre, a respeito da construção da nossa casa sobre a areia. Os japoneses construíram suas casas em cima de ilhas vulcânicas sujeito a vulcanismo e tectonismo (terremotos). E ao longo da história, vários foram os terremotos que destruíram cidades japonesas, assim como já destruíram cidades ao longo da Cordilheira dos Andes  que é também outra área sísmica.

As pessoas que foram vítimas da destruição de suas casas pelas chuvas neste verão, também não foram castigadas por Deus. Mas sim, vítimas de uma fatalidade, o que não aconteceu a outros, até mais pecadores que eles, porém, são privilegiados  por  morar em casas construídas em lugares ou áreas não vulneráveis ao impacto das fortes chuvas.

Não estamos botando a culpa nos japoneses.  Acontece que por necessidade, muita gente no mundo constrói suas casas em áreas de risco. E quando bate a  tormenta, as cheias ou o terremoto e que o pior acontece, muitas pessoas ficam pensando em castigo ou falta de amor de Deus.  

Do mesmo modo, muitos neste instante estão sofrendo, não porque seus pais pecaram, mas porque escolheram caminhos perigosos. Pelo tipo de uso de sua liberdade, estão sofrendo as conseqüências. Pois quem vive pela espada por ela morrerá.  Quem ama o perigo, nele perecerá.  Não basta viver perigosamente. É preciso responder pelos nossos atos. Arcar com as conseqüências daquilo que escolhemos seguir ou fazer, sem botar a culpa em Deus, "quando a vaca vai pro brejo". Quando tudo sai errado, quando nada daquilo que planejamos acontece.

Jesus acrescentou em seu diálogo que "É necessário que nós realizemos
as obras daquele que me enviou, enquanto é dia."
Assim nós também.   Façamos logo as nossas obras de caridade enquanto estamos nesta vida! Enquanto há tempo de corrigir os nossos erros, de redirecionar  o rumo da nossa caminhada. Enquanto temos forças para ajudar o irmão que precisa, enquanto temos forças para trabalhar e ganhar o nosso sustento, ao passo que outros já não o podem mais. Enquanto podemos fazer alguma coisa por aqueles que nos olham com ar de desespero, de sofrimento e de derrotados. Enquanto estamos de pé, vamos dar a mão para aqueles que já caíram na estrada da vida, e não mais conseguem dar passos firmes como nós.

Que nossos presentes não sejam somente por interesse. Que não damos somente àqueles que podem nos recompensar ou também nos dar um dia.  Mas sim, vamos oferecer a nossa ajuda, vamos dar de comer, de bebe e vestir àqueles que não podem nos devolver esses favores. E, acredite! Este é o maior e o melhor dos investimentos. Pois quem dá um na Terra receberá cem no céu. Foi Jesus quem disse!

Os mesquinhos e egoístas não dão esmolas. Eles inventam mil desculpas para não fazer isso.   Ele é preguiçoso!  É vagabundo! Ele vai comprar bebida! Cuidado! Ele vai se acostumar!

Muitos donos de restaurantes, de casas de lanches, ficam muito contrariados quando um cliente oferece comida a um faminto que se aproxima do recinto.

A preguiça é uma doença. Você é trabalhador? Então agradeça a Deus.
Ele vai comprar bebida? Ah! Você pode encher a sua cara, nas festas, nos finais de semanas, etc. Aquele pobre coitado não tem o direito a nenhuma gota de diversão? Não tem o direito de se embriagar para esquecer a sua miséria? A miserável vida que ele vive? Sabia que pensar assim é puro egoísmo, meu irmão?

Nota-se que este milagre realizado por Jesus àquele  cego gerou uma grande polêmica. De um lado, os vizinhos admirados, nem acreditavam no que estavam vendo. Aquele homem era cego agora está enxergando! Do outro lado, os fariseus obcecados pela observação do descanso sabático, queriam saber a qualquer preço quem foi que desrespeitou a Lei, trabalhando ou mexendo no barro e curando um cego.

Disseram, então, alguns dos fariseus: 'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.'  Mas outros diziam: 'Como pode um pecador fazer tais sinais?'
            Foi assim que aconteceu. A pessoa de  Cristo gerava contradição.  Não se estranhe ou admire se pelo seu trabalho de catequista a sua pessoa for ignorada por uns, ou questionada por outros, ou ainda chacoteada pelos incrédulos movidos por satanás.

Porém, o mais gratificante é que os seguidores de Jesus, os que têm fé, reconhecem o seu esforço e o acolhem de forma carinhosa e animadora!

 Sal.

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"filhos da luz" – Maria Regina

 

 

                                   No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como a luz do mundo. Entretanto, percebemos que não é uma luz que impõe ser vista indiferentemente por todos; mas aquilo que se constata através de sua ação, a cura de um cego, é que algumas pessoas começam a ver e outras permanecem cegas, tudo depende da atitude de cada um de nós.

                                  No início do relato, Jesus vê um cego de nascença e decide curá-lo por iniciativa própria, ninguém lhe pede para fazê-lo. Mas os discípulos ficam refletindo uma idéia muito difundida (não só no mundo daquele tempo, mas forte ainda hoje) segundo a qual toda doença é castigo de Deus pelo pecado. Assim, eles perguntam a Jesus se a causa da cegueira do mendigo foram os pecados dele ou dos seus pais isto não é completamente ilógico, já que frequentemente muitos de nós somos tentados a pensar que os males físicos e psíquicos de uma determinada pessoa seja culpa dos pais; por exemplo, se uma criança nasce com AIDS não é culpa sua obviamente, e colocamos a culpa na mãe, quando pode não ser; pais briguentos podem provocar nos filhos traumas psicológicos, tornando-os doentes.

    
                           Mas no caso do cego em questão, Jesus desmente categoricamente aquela convicção: "Nem ele nem os seus pais pecaram"; a cegueira do mendigo, como qualquer outra enfermidade, não depende sempre de específicas culpas de alguém nem de Deus, que não é vingativo, mas aquele homem assim nasceu para que as obras de Deus se manifestem nele. Jesus cura o cego. E os olhos que ele curou para ver o sol, abrem-se gradativamente para ver aquele que lhe curou. O milagre suscita uma discussão entre os presentes e conhecidos. Há uma tentativa de afastar a verdade. Duvidam da identidade do homem curado: "não é ele, mas alguém parecido com ele". Porém, o ex-
cego afirma sua identidade "sou eu mesmo!", ainda que não saiba dizer nada sobre Jesus nem sobre onde eles possam encontrá-lo.

 

                         Em seguida, ao encontrar os fariseus, estes se escandalizam e sustentam que, tendo feito Jesus o milagre em dia de sábado quando é proibido qualquer trabalho, era um pecador: portanto, devia ser evitado; mas à inconfundível consideração do curado, surge uma divergência entre eles, pois ficam se perguntando como é possível um pecador fazer tal sinal?

 

                        Os fariseus se interessam normalmente só com o "como" Jesus fez isso (dia de sábado), de onde concluíam que ele era um pecador. O fato da cura em si não tinha nenhum significado para eles. Mas depois de terem colocado todos os pretextos e tentado subornar a família do cego que arriscava ficar toda ela expulsa da comunidade ficava agora obrigatória tomar uma posição com relação à pessoa de Jesus. Aí é onde entra a inconformidade do curado com os fariseus. Pois ele é consciente da relação perfeita que há entre Jesus e Deus. "Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo". "Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade". Para o cego curado, a cura torna-se verdadeiramente um sinal que o leva a reconhecer o vínculo entre Deus e Jesus. Os fariseus continuaram resistindo em não querer enxergar e endureceram o coração, expulsando o homem da comunidade.

 

                            É triste! Não há pior cego que o que não quer ver; e a cegueira espiritual é pior que a física, onde diante da evidência alguém permanece emperrado nos próprios preconceitos, fechando os olhos para a realidade. O episódio se conclui com a revelação do significado profundo do prodígio. Encontrando de novo o homem curado, agora expulso da comunidade, Jesus o convida a valer-se da vista recuperada para reconhecê-lo: "você acredita no Filho do Homem?" "E quem é? para que creia nele"? "Tu o estás vendo, é aquele que está falando contigo". Como com a samaritana do domingo passado, tudo caminha para a mesmo finalidade.

 

                              A luz dos olhos é metáfora da luz da alma. O cego de nascença é cada homem, cada mulher, incapaz de sozinho ver a luz divina, e, que, portanto deixa-se guiar por ela, com as conseqüências, pessoais, e coletivas, das quais todos somos testemunhas; e se quisermos permanecer cegos, fazendo descaso da luz de Deus, quantos desastres, derrotas, tragédias, amarguras, teremos pela frente! Para evitá-las na sua bondade Deus nos fez dom da sua luz, para que possamos ver a estrada justa no caminho desta vida, a estrada que tem como meta ele, luz do mundo. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista , quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez profunda e possamos reconhecer Nele o nosso Único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como "filho da luz".

Amém

Abraço carinhoso

 

Maria Regina

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SE NOS É OFERECIDO A LUZ, PORQUE VIVER NAS TREVAS? - Olívia Coutinho

03 de Abril de 2011

Evangelho - Jo 9,1-41

 Neste quarto domingo da quaresma, já podemos alargar um pouco mais nossos passos, passar de uma percepção ainda ingênua, para uma visão lúcida da vontade de Deus e das necessidades de tantos irmãos!
Aprendemos muito com Jesus, mas ainda há muito que aprender, pois temos uma missão muito importante: fazer chegar a tantos corações, a luz que não se apaga: Jesus!

O evangelho de hoje vem nos trazer a certeza de que a realização plena do homem continua sendo a prioridade de Deus!

Jesus veio trazer-nos a luz libertadora, Ele nos convida a renunciar tudo o que gera "trevas"!

No domingo anterior, Jesus se revelou como a água viva, hoje se revela como a luz que veio iluminar os nossos caminhos! O cego de nascença, é um símbolo de todos aqueles que vivem na escuridão, privados da "luz", prisioneiros dessas cadeias que os impede de chegar à plenitude da vida!

A passagem de Jesus é sempre transformadora, por onde Ele passa tudo ganha um significado novo, é impossível não haver mudanças, pois a Sua presença é provocante, iluminadora, como foi o seu encontro com o cego de nascença!

Enquanto caminhava com seus discípulos, Jesus vê um cego de nascença e se aproxima dele. E como naquela época, a idéia religiosa dominante, fazia as pessoas acreditarem que o sofrimento, a doença, era castigo de Deus, conseqüência do pecado, os discípulos ficaram curiosos em saber quem havia pecado, o cego, ou os seus pais? Jesus que gostava de aproveitar todas as oportunidades para passar um ensinamento novo, corrige esse modo de pensar, que tinha como objetivo, não deixar que  as pessoas enxergassem  a realidade opressora em que viviam.

Não podemos esquecer nunca, que Deus é Pai e que não castiga ninguém! A doença o sofrimento, faz parte da nossa natureza humana, não vem da vontade de Deus.

Não precisamos também ficar andando por aí, em busca de milagres, pois o grande milagre é a nossa cura interior, quando recusamos as trevas para nos abrir à Luz!

Ninguém precisa viver na escuridão, temos um interruptor bem ao nosso alcance, só nos basta um pequeno movimento!

Muitos vivem nas trevas, porque ainda não lhes foram anunciado a Luz, outros, porque rejeitam a Luz, preferindo viver nas trevas, para que suas ações não sejam vistas.

E nós, como estamos vivendo? Estamos a caminho da "piscina" de "Siloé" com o propósito de retirar a "lama" dos nossos olhos? Ou ainda estamos tateando por aí, com os nossos olhos vendados, correndo o risco de cairmos em "piscinas" vazias?

Qual é o Jesus que que queremos enxergar?

Às vezes, ouvimos as palavras de Jesus e até gostamos, mas como não queremos nos comprometer com Ele, preferimos vê-Lo do nosso jeito, um Jesus bonzinho, quietinho lá no céu, sem nos "incomodar", com isso, deixamos de fazer a experiência do Jesus verdadeiro! O Jesus que nos "incomoda", que nos inquieta, que nos quer ver a caminho, carregando a nossa cruz, estendendo a nossa mão para os "cegos" das beiras de caminho! 

Jesus nos convida a um processo de renovação, a deixarmos tudo que nos aliena, nos escraviza e nos impede de aproximar da luz!

 Não podemos viver na incerteza, como aquele povo que questionaram a cura do cego! Precisamos abrir os nossos olhos, discernir o que é de Deus e o que é contrario ao seu evangelho, termos a certeza de que temos um Pai amoroso, que cuida da gente e que faz cair sobre nós, tantas maravilhas, como pingos de chuva a encharcar o nosso coração com o seu imenso amor!

Que possamos neste tempo Quaresmal, nos banhar por inteiros, na piscina de "Siloé" e de lá, sairmos limpos, renovados, prontos para assumirmos a nossa missão: cuidar  do jardim, que Deus  confiou aos nossos cuidados!

 

Se nos é oferecido a Luz, porque viver nas trevas?

 

Olívia Coutinho

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Homilia do D. Henrique Soares da Costa – IV Domingo da Quaresma – Ano A

1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Sl 22
Ef 5,8-14
Jo 9,1-41

O Evangelho de hoje é mais uma belíssima catequese batismal que nos prepara para a santa Páscoa. Não esqueçamos que em muitas paróquias adultos estão terminando seus preparativos para o Batismo.

No Domingo passado, no Evangelho da Samaritana, vimos que Jesus é o Messias que dá a verdadeira água do Espírito Santo, água que jorra para a vida eterna.

Neste hoje, "ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença". Esse homem simboliza os judeus; pode simbolizar também a humanidade toda. Os discípulos, apegados a uma crença popular antiga, tão combatida por Jeremias e Ezequiel, pensavam que o cego estava pagando pelos pecados seus ou dos seus antepassados. É a uma crença errada, semelhante à superstição da reencarnação: "Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?" Não há resposta, não há explicação! Os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece: "Nem ele nem seus pais pecaram: isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele!" Até na dor e no sofrimento Deus está presente quando somos abertos à sua presença. Pena que nosso mundo superficial e incrédulo não compreenda isso… Se se abrisse para Jesus, o Inocente crucificado e morto… Na sua luz, contemplamos a luz da vida: "Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo!" Mas, o nosso mundo se fecha na sua racionalidade cega e orgulhosa…

Jesus, cospe no chão e faz lama. A saliva, para os judeus, continha o espírito; simboliza, então, como a água, o dom do Espírito. Depois, Jesus ordena: "Vai lavar-te na piscina de Siloé!" É a piscina do Enviado de Deus, do Messias, imagem da piscina do nosso Batismo, na qual somos iluminados pelo Senhor que é luz do mundo! Por isso o homem vai e retorna vendo. Eis o que é o cristão, o discípulo de Cristo: aquele que era cego, foi lavado na piscina batismal e voltou vendo. Porque ele vê, os judeus o expulsam da sinagoga, como o mundo também nos expulsa de sua amizade a apreço! Não somos do mundo, como o Senhor nosso não é do mundo; ele nos separou do mundo! Agora, curado da cegueira, aquele que foi iluminado pode ver Jesus; ver com a fé, ver a realidade mais profunda, ver que ele é o Senhor, Filho de Deus: "'Acreditas no filho do Homem?' 'Quem é, Senhor para que eu creia nele?' Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo!'" Para isso te curei, para isso fiz-te enxergar! "'Eu creio, Senhor!' E prostrou-se diante de Jesus!"

Também nós fomos iluminados pelo Cristo no Batismo. Para nós valem as palavras de São Paulo:"Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor! Vivei  como filhos da luz! Não vos associeis às obras das trevas!" Eis, caros irmãos: iluminados por Cristo não podemos pensar como o mundo, sentir como o mundo, agir como o mundo! Devemos viver na luz e ser luz para o mundo! Mas, não é fácil; não basta querer! Sem a graça do Senhor, nada conseguiremos, a não ser sermos infiéis! Por isso a necessidade dos exercícios quaresmais; por isso a oração, a penitência e a  caridade fraterna, por isso a necessidade da confissão de nossos pecados! Não nos esqueçamos: não poderemos zombar de Cristo: seremos julgados na sua luz: "Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem vejam e os que vêem se tornem cegos!" – Eu vim para revelar a luz aos humildes, aos que se abrem à minha Palavra e à minha Presença, e vim revelar a cegueira do mundo confiado na sua própria razão, na prepotência de seus próprios caminhos! Porque este mundo diz que vê, que sabe, que está certo, seu pecado permanece! Somente se abrir-se para a luz do Cristo, caminhará na luz e enxergará de verdade!

E nós, caminhamos na luz ou permanecemos nas trevas? Que o Senhor ilumine a nossa vida. Amém!

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Homilia do Padre Françoá Costa – IV Domingo da Quaresma – Ano A

Fé mais profunda

As passagens do Evangelho que a Igreja oferece para esse ciclo litúrgico são uma verdadeira catequese. No primeiro domingo, escutamos o Evangelho das tentações e pensamos nas provas, lutas e dificuldades da vida. No segundo, o da Transfiguração, no qual fomos iluminados com a contemplação, na fé, do rosto do Senhor e meditamos na nossa filiação divina. No terceiro, aparecia a Samaritana pedindo a água que sacia sem saciar, o Espírito Santo. Hoje, quarto domingo, o cego que começa a ver por iniciativa de Jesus; no entanto, depois a iniciativa seria do cego, pois ele procuraria Jesus e o adoraria. Finalmente, no domingo que vem, escutaremos a narração da ressurreição de Lázaro e nos recordaremos tanto da nossa ressurreição espiritual no Batismo e na Confissão sacramental quanto da ressurreição da carne que experimentaremos na consumação dos últimos tempos nos quais vivemos.

O Papa Bento XVI dizia que "o domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n'Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz»" (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2011).

Deus conceda que a nossa fé seja mais profunda. Nós, como aquele que fora cego, começamos a ver somente pela iniciativa e pelo poder de Jesus; também foi pela ação misteriosa da graça que nós continuamos a buscar a Cristo e a adorá-lo. Há uma antiga oração da Igreja que pede a Deus que as nossas ações sejam precedidas, ajudadas e terminadas com o auxilio divino mostrando, dessa maneira, a nossa dependência total do Senhor. Seria terrível se algum dia nos invadisse uma espécie de autossuficiência espiritual. Seria o momento no qual Jesus nos diria, como outrora aos fariseus, que a nossa pretensão é o que nos cega (cfr. Jo 9,41).

Não nos consideremos grande coisa só porque participamos de uma determinada pastoral ou de determinado grupo; nem pensemos que seremos salvos porque somos desse ou daquele movimento; tampouco nos apoiemos numas obras que sabemos que são boas, mas que frequentemente estarão manchadas pelo egoísmo e pelo orgulho. A caminhada junto ao Senhor, as contínuas quedas no caminho rumo à santidade, a aparente repetição das lutas interiores que nós não sabemos explicar, deveriam levar-nos a uma profunda humildade, a confiar sempre mais na iniciativa de Jesus, a combater os nossos próprios defeitos em total dependência da ação divina e a adorar a Deus com todo o nosso ser.

Livre-nos Deus de toda pretensão. Ao contrário, devemos reconhecer constantemente que Jesus é o nosso único Salvador. É esse reconhecimento que nos faz fortes e audaciosos, não por nossa própria virtude, mas confiando em Jesus. Aprofundar na fé nos fará ver, cada vez mais, a importância de sermos pequenos diante de Deus. Essa pequenez é totalmente compatível com a visão de águia, ampla e audaciosa, que nós devemos ter. Uma criança, deixada às suas próprias forças, cairá; verá pouco porque é de baixa estatura, ou seja, terá uma visão demasiado limitada da realidade. No caso de que essa criança seja levantada pelos braços poderosos do seu Pai do céu, terá outra visão das coisas. Nos braços de Deus e, portanto, das alturas, veremos diferente. Surgirá um panorama antes insuspeitável, um horizonte jamais contemplado e uns campos jamais ceifados. A profundidade da fé que nos leva à humildade, a cavar profundamente no nosso nada, nos leva também à magnanimidade, ao desejo de realizar grandes ações, ao desejo de "comer o mundo" por Deus, a ser apóstolo, a evangelizar, a trazer muitas pessoas à casa de Deus. Tudo isso é resultado de ir aprofundando cada vez mais na fé. Isso é graça, mas também é responsabilidade pessoal: rezar, fazer penitência, confessar-se, ler assiduamente o Evangelho, pedir a Nossa Senhora e a São José que nos ensinem a conviver com Jesus, lutar por extirpar defeitos e pecados. Esses são os meios que o Senhor coloca à nossa disposição para que alcancemos o fim.

Não podemos ficar lamentando-nos: "sou um pobre pecador", "não posso nada", "pobre de mim". Não podemos paralisar-nos! Enquanto isso os inimigos de Deus e de sua Igreja trabalhariam para dominar. Não! Sabedores das nossas fraquezas, confiaremos na graça de Deus; conscientes da nossa pobreza, nos enriqueceremos com os tesouros imperecíveis do nosso Pai do céu. O cristão deve ser uma pessoa de fé cada vez mais profunda, humilde, simples; deve ser pequeno diante de Deus. Mas um filho de Deus deve ser também alguém que anda com a cabeça erguida, consciente da sua nobre condição e do seu dever de "comer o mundo". Um maior crescimento na fé implica uma visão mais ampla das coisas e uma audácia antes não experimentada. Deus conta conosco!

Pe. Françoá Costa

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Homilia de Mons. José Maria Pereira – IV Domingo da Quaresma – Ano A

Jesus e o Cego

Celebrando o 4º Domingo da Quaresma, o Evangelho (Jo 9, 1-41) nos apresenta o tema da Luz.
Jesus unge os olhos do cego de nascença com lama feita a partir da saliva. Jesus como que inicia com um rito. Toca os olhos do cego, concedendo-lhe a visão. E, aos poucos no diálogo com ele, vai-lhe despertando a fé. E o cego acaba vendo, à luz da fé, que Jesus é o Filho do Homem. Acaba dando testemunho dele.
A cura do cego descreve o processo da fé de um homem, que vai passando das trevas da cegueira, para a luz da visão, e desta para a Luz da fé em Cristo. O "Cego" é um símbolo de todos os homens que renascem pela fé, acolhendo Jesus (no Batismo) e deixando-se conduzir pela sua palavra.

Tudo começa por uma pergunta dos discípulos a Jesus: "Por que esse homem nasceu cego?" "Quem pecou para que nascesse cego: ele ou seus pais?" (Jo 9,2). Jesus responde: "Nem ele, nem seus pais pecaram…" (Jo 9,3). Com essa resposta Jesus lembra o que os profetas já combatiam que era uma crença popular antiga que pensavam que o cego estava pagando pelos seus pecados ou dos seus antepassados. Trata-se de uma crença errada, semelhante ao absurdo da reencarnação. Esta é uma crença espírita, não é cristã. A Palavra de Deus nos diz: "os homens morrem uma só vez, depois vem o juízo" (Hb 9,27). A reencarnação é uma injustiça! É negar a obra redentora de Cristo e afirmar que é o próprio homem que se salva, por etapa, cada vez mais que se reencarna. É a onda do reciclável, como lixo.

"Nem ele, nem seus pais pecaram…". Com isso Jesus quer nos ensinar que os segredos da vida pertencem a Deus! Se crermos no seu amor, se nos abandonarmos nas suas mãos, a maior dor, o mais inexplicável sofrimento pode ser confortado pela certeza de que Deus está conosco e nos fortalece. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" Até na dor e no sofrimento Deus está presente.

O mundo hedonista, consumista e superficial não compreende isso! O cego é questionado pelas autoridades sobre a origem de Jesus. E ele mostra-se livre (diz o que pensa…); corajoso (não se intimida); sincero (não renuncia à verdade); suporta a violência( é expulso da Sinagoga). Antes de se encontrar com Jesus, o cego é um homem prisioneiro das "trevas", dependente e limitado. "Não sabe quem o curou…" Finalmente, encontrando-se com Jesus, que lhe pergunta: "Acreditas no Filho do Homem", manifesta a sua adesão total: "Creio, Senhor". Prostra-se e O adora. O caminho de fé do cego é um itinerário para todo cristão! São Josemaria Escrivá, em Amigos de Deus, nº 193, diz: "Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego! Uma fé viva, operativa. É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz? Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem umedecidos? Teria  sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório de um sábio alquimista. Mas aquele homem crê, põe  em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade". Nesta Quaresma, somos convidados a viver a experiência catecumenal, renovando o nosso Batismo, mediante o Sacramento da Penitência (Confissão).

Quanto mais buscamos Jesus como Luz, mais nossa vida terá sentido. O nosso comportamento de cristão deve ser testemunho do Batismo recebido; devemos testemunhar com as obras que Cristo é para nós, não apenas luz da mente, mas também luz da vida. Não são as obras das trevas – o pecado- as que correspondem a um batizado, mas sim as obras da luz.

Como o cego, após o encontro com Jesus, iluminado, manifestemos a alegria de sermos cristãos! "A alegria do discípulo não é um sentimento de bem estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é a nossa alegria" (DA, 29).

" Ó Deus, luz de todo o ser humano que vem a este mundo, iluminai nossos corações com o esplendor da vossa graça, para pensarmos sempre o que vos agrada e amar-vos de todo o coração."

Mons. José Maria Pereira

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"Agora sois luz no senhor"

1. Acreditas no Filho do Homem?

Continuando nosso caminho quaresmal, refletimos sobre o texto do evangelho que narra o milagre de Jesus que cura o cego de nascença (Jo 9,1-41). Não se trata só de milagre, mas é um sinal – uma ação de Jesus – que explica e conduz ao ato de fé.

O ponto alto do evangelho é a profissão de fé do cego que fora curado. Jesus pergunta: "Acreditas no Filho do Homem? '. Respondeu ele: "Quem é para que eu creia?" Jesus disse: "Tu O estás vendo; é Aquele que fala contigo". O homem professa sua fé: "Eu creio Senhor! ' E prostrou-se diante de Jesus" (Jo 9,35-38).

Por que professa a fé? Porque Jesus abriu-lhe os olhos, mesmo sem ele ter pedido. Os discípulos apresentam um problema ao verem o cego: "Quem pecou para que ele nascesse cego: ele ou seus pais?" (v. 2). Jesus responde que nem um nem outro, mas que "isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele" (v. 3). E, com uma palavra forte, Jesus completa: "Eu sou a luz do mundo" (v.5).

A visão da fé é diferente. "Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos" (v. 39). Os fariseus se diziam conhecedores das coisas de Deus. Jesus, porém, acrescenta que só através dele podemos ver Deus.

Como ao longo desta quaresma estamos refletindo sobre as etapas do Batismo, damos hoje um passo a mais. O batismo é uma iluminação. Jesus "fez barro com saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer Enviado)'" (vs. 6-7). Ele é o enviado de Deus, o Ungido de Deus. Como lemos na primeira leitura (1Sm. 16,1ss), Davi, por pura bondade de Deus, foi escolhido por Ele para ser rei. Samuel o ungiu.

Cristo é o Ungido de Deus, o Messias. Ser iluminado é ser luz. "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor" (Ef. 5,8). O pecado provoca a cegueira. A fé abre os olhos à luz que é Cristo. "Em vossa luz, contemplamos a luz" (Sl. 36,9). Ele é a Luz que ilumina todo homem que vem a esse mundo (Jo 1,9).

Nesse passo do batismo, os catecúmenos recebem o nome de iluminados e, nós, já batizados, crescemos na luz que é Cristo, acolhendo-o com fé.

2. O Senhor não vê as aparências

O cego representa o gênero humano, que é cego em conseqüência do pecado. A esse mundo foi enviado Jesus (o nome da piscina é Siloé, isto é, Enviado). O barro que ele fez, diz santo Ambrosio, é a encarnação do Filho de Deus. Ele é o Ungido de Deus.

Na primeira leitura ouvimos que Samuel vai à casa de Jessé para ungir o novo rei de Israel em lugar de Saul, rejeitado por Deus. Jessé apresenta seus filhos, grandes, fortes. Nenhum deles era o escolhido. Deus vê o coração e não as aparências. Mandaram buscar Davi, que era garoto.

A fé em Jesus faz que vejamos com os olhos de Deus. Só a partir dela é que vemos as coisas espirituais e, de modo justo, vemos as materiais. O cristão, como Davi, é também um ungido. A unção da fé é luz em nós.

3. Vivei como Filhos da Luz

Cristo te iluminará (Ef. 5,14)! O cristão se torna luz. "O fruto da Luz chama-se: bondade, justiça e verdade" (v. 9). Paulo diz ainda: "Não vos associeis às obras das travas que não levam a nada" (11)... "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor" (v.8). Por isso é preciso dar frutos.

Rezamos após a comunhão: "Iluminai nossos corações com o esplendor da vossa graça, para pensarmos sempre o que vos agrada e amar-vos de todo o coração". A vida cristã de fé é comportamento. A fé não é só crer, é viver de acordo com o que se acredita. Na Eucaristia, pela Palavra e pelo Pão da Vida, somos iluminados para ser luz de Cristo no mundo.

"Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações"

(cf. Is. 66,10-11).

Celebramos hoje o domingo "Laetare", ou seja, o domingo em que somos convidados a alegria. A própria antífona da entrada da santa missa dá o tom que celebramos: "Alegra-te, Jerusalém!". O sacerdote pode usar, por concessão litúrgica, a estola ou a casula rosácea. Assim a liturgia nos coloca na companhia dos que jubilosos sobem a Jerusalém. Somos nós, também, convidados a subir a Jerusalém. Subir a Jerusalém, nesta Quaresma, para contemplarmos as maravilhas que Deus vem operando em nossas vidas, neste caminho de penitência, de jejum e de oração para Ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida.

O tema da alegria vai permear toda a liturgia, desde a oração da coleta até a oração sobre as oferendas. A segunda leitura nos ensina que Cristo vai iluminar as nossas trajetórias. Cristo, iluminando a nossa vida, para relembrar o Batismo, tema que iniciamos a nossa reflexão no domingo passado, que entendemos, melhor, no Evangelho, aonde Cristo é colocado como a luz do mundo, que abre os olhos ao cego pelo banho no "Siloé, que significa: Enviado" (cf. Jo 9,7). Carregado de simbolismo batismal, o Santo Evangelho de João, é também uma profunda e rica lição de fé: os diálogos revelam sempre mais firme e decidida a fé do ex-cego, enquanto cresce a má vontade em aceitar Jesus e os seus sinais pelos fariseus.

Por fim, o homem é excluído da sinagoga pelos hebreus  - sorte de muitos judeu-cristãos no fim do século I – mas, ao reencontrar Jesus, chega a professar sua fé e a adorar Jesus, fazendo jus ao sinal que recebera – a abertura dos olhos, sinal do batismo.

Mas, devemos nos perguntar: como estamos vivendo o nosso Batismo? Depois que fomos batizados estamos vivendo a coerência de filhos e filhas de Deus?  Por isso os batizados devem ser alegres, porque receberam a Luz de Cristo, que iluminará a nossa vida, como iluminou o dia santo em que recebemos a luz de Cristo representada pela vela acessa.

As trevas são a solidão, a dor, a noite, a escuridão. A Luz é o dia, a claridade, a vida, a presença de Deus. O cego vivia nas trevas e, pela ação e graça de Cristo, viu a luz. Mas que luz o cego viu? A luz que é o Cristo em sua pessoa divina e humana; e como tal, se torna a salvação para o homem, tal qual viu o cego do Evangelho hodierno.

Viver no mundo das trevas é não reconhecer Jesus, Deus e Homem, como o Salvador e Redentor. E aqui está o maior de todos os pecados que se pode cometer.

Os fariseus de hoje, ao contrário dos habitantes de Sicar do domingo passado, tinham um coração fechado, repleto de auto-suficiência, de homens velhos que não queriam abrir-se a graça de Deus.

Jesus hoje se apresenta como a Luz. Luz da razão e do coração. Luz que é capaz de fazer ver o rosto de Deus, reconhecê-lo, proclamá-lo e nele encontrar a sua segurança, o seu refúgio, o seu único repouso. A cegueira curada hoje ilumina as obras de Deus, especialmente, a maior, que é a criação e a encarnação de Seu Filho Jesus.

Os cegos eram tidos como pecadores pelos hebreus. Isso por duas razões: primeiro, porque se fossem pessoas boas, Deus não os teria castigado com a cegueira. Segundo, porque, como cegos, não tinham possibilidade de cumprir todos os mandamentos, e por conseguinte, se não eram, se tornavam pecadores. Mentalidade curta, legalista, ritualista que não liberta o homem. Aí vem o Cristo, a curar o cego, a nos advertir que a sua Luz, a adesão ao seu seguimento, ilumina todos os homens e mulheres que querem experimentar a salvação.

Do Messias era esperado restituir a vista aos cegos. Esperança doce dos hebreus que se realizou no Cristo. Realizou-se de maneira plena, principalmente, quando o cego curado exclama com fé: "Eu Creio, Senhor!", se ajoelhando diante de Jesus.

Várias são as cegueiras, além da cegueira física: a cegueira do coração, a cegueira do egoísmo, a cegueira da auto-suficiência, a cegueira da falta de caridade, a cegueira do ódio, a cegueira da violência, a cegueira da inveja; a cegueira da maldade de coração, a cegueira da língua, a cegueira dos ouvidos. Jesus veio curar de todas estas enfermidades, que teimamos em não querer a cura, ao não aceitar Jesus.

Devemos reaquecer, reavivar a piedade em Cristo, para que a sua obra salvadora se instale na terra, seja vivida e seguida por muitos que estão nas trevas dos erros e dos vícios. E vivendo a Luz a partir do mandamento sempre novo, que nunca se envelhece, o amor gratuito, generoso, paciente, que acolhe sempre o diferente.

Somos convidados hoje a vivenciarmos o nosso Batismo. Os sacramentos são sinais visíveis e eficazes da graça de Deus, já nos ensina a antiga escolástica canônica. De nada nos cura as águas do batismo se o Cristo não conseguir nos tocar primeiro. Os dois sentidos da cegueira, o espiritual e o físico, bem acentuados hodiernamente, quando Jesus usa o "cuspir" no chão, fazer lodo, para, por conseguinte, pôr no olho do cego, mandando que o mesmo lave a sua impureza tem um grande significado como sinal. O cego faz uma atitude que poucos de nós faz: ele não questiona a ordem de Jesus, ele a obedece com fé. O ceguinho teve uma atitude de humildade, confiança e esperança, sem a qual não há caminho de acesso ao Senhor.  Depois o ceguinho pensa que Jesus é um profeta, ou uma pessoa boa. Por fim, o cego pensa que Jesus tem poderes especiais oferecidos por Deus. Só, à partir daí, que ele reconhece que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o escolhido, o santo dos Santos, o Senhor, a quem ele vai se prostrar para adorar em espírito e em Verdade.

Já os fariseus percorreram, de sua vez, o caminho contrário. Sabiam tudo a respeito de Jesus, de sua missão e de seu poder, mas se julgaram auto-suficientes, não precisando de nada.

Qual deve ser o nosso caminho? Ter a atitude confiante do ceguinho? Ou anunciar aos quatro ventos que somos quase-deuses, e de nada precisamos de Jesus? Ter a cegueira curada, como o ex-cego, e a graça de reconhecer a divindade de Jesus é uma atitude que todos nós devemos ter no dia a dia. A nossa fé começa a partir do momento em que acreditamos naquilo que não vemos, mas sentimos no irmão e na irmã, no Cristo que se fez comunidade conosco e que vem ao nosso auxílio sob as espécies do Pão e do Vinho da Salvação.

David foi lembrado na primeira leitura pela sua unção. Destacando a dignidade de rei e sacerdote, nos lembra o Cristo-Ungido-Mestre e, ao mesmo tempo, nossa unção batismal em Cristo. A Quaresma deve ser vista como o tempo propício à proclamação renovada de nossa fé batismal. Ã partir daí Cristo nos iluminará. Que possamos viver a intensidade deste tempo, renovando o nosso batismo, assumindo-o conscientemente anunciando a todos Jesus, A Luz do Mundo!

padre Wagner Augusto Portugal

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O pior cego é aquele que não quer ver

No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como a luz do mundo. Entretanto, percebemos que não é uma luz que impõe ser vista indiferentemente por todos; mas aquilo que se constata através de sua ação, a cura de um cego, é que algumas pessoas começam a ver e outras permanecem cegas, tudo depende da atitude de cada um de nós.

No início do relato, Jesus vê um cego de nascença e decide curá-lo por iniciativa própria, ninguém lhe pede para fazê-lo. Mas os discípulos ficam refletindo uma ideia muito difundida (não só no mundo daquele tempo, mas forte ainda hoje) segundo a qual toda doença é castigo de Deus pelo pecado. Assim, eles perguntam a Jesus se a causa da cegueira do mendigo foram os pecados dele ou dos seus pais.

Isto não é completamente ilógico, já que frequentemente muitos de nós somos tentados a pensar que os males físicos e psíquicos de uma determinada pessoa seja culpa dos pais; por exemplo, se uma criança nasce com AIDS não é culpa sua obviamente, e colocamos a culpa na mãe, quando pode não ser; pais briguentos podem provocar nos filhos traumas psicológicos, tornando-os doentes.
Mas no caso do cego em questão, Jesus desmente categoricamente aquela convicção: "Nem ele nem os seus pais pecaram"; a cegueira do mendigo, como qualquer outra enfermidade, não depende sempre de específicas culpas de alguém nem de Deus, que não é vingativo, mas aquele homem assim nasceu para que as obras de Deus se manifestem nele. Jesus cura o cego. E os olhos que ele curou para ver o sol, abrem-se gradativamente para ver aquele que lhe curou. O milagre suscita uma discussão entre os presentes e conhecidos. Há uma tentativa de afastar a verdade. Duvidam da identidade do homem curado: "não é ele, mas alguém parecido com ele". Porém, o ex-cego afirma sua identidade "sou eu mesmo!", ainda que não saiba dizer nada sobre Jesus nem sobre onde eles possam encontrá-lo.

Em seguida, ao encontrar os fariseus, estes se escandalizam e sustentam que, tendo feito Jesus o milagre em dia de sábado quando é proibido qualquer trabalho, era um pecador: portanto, devia ser evitado; mas à inconfundível consideração do curado, surge uma divergência entre eles, pois ficam se perguntando como é possível um pecador fazer tal sinal?

Os fariseus se interessam normalmente só com o "como" Jesus fez isso (dia de sábado), de onde concluíam que ele era um pecador. O fato da cura em si não tinha nenhum significado para eles. Mas depois de terem colocado todos os pretextos e tentado subornar a família do cego que arriscava ficar toda ela expulsa da comunidade, ficava agora obrigatória tomar uma posição com relação à pessoa de Jesus.

Aí é onde entra a inconformidade do curado com os fariseus. Pois ele é consciente da relação perfeita que há entre Jesus e Deus. "Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo". "Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade". Para o cego curado, a cura torna-se verdadeiramente um sinal que o leva a reconhecer o vínculo entre Deus e Jesus. Os fariseus continuaram resistindo em não querer enxergar e endureceram o coração, expulsando o homem da comunidade.

É triste! Não há pior cego que o que não quer ver; e a cegueira espiritual é pior que a física, onde diante da evidência alguém permanece emperrado nos próprios preconceitos, fechando os olhos para a realidade.

O episódio se conclui com a revelação do significado profundo do prodígio. Encontrando de novo o homem curado, agora expulso da comunidade, Jesus o convida a valer-se da vista recuperada para reconhecê-lo: "você acredita no Filho do Homem?" "E quem é? para que creia nele"? "Tu o estás vendo, é aquele que está falando contigo". Como com a samaritana do domingo passado, tudo caminha para a mesmo finalidade.

A luz dos olhos é metáfora da luz da alma. O cego de nascença é cada homem, cada mulher, incapaz de sozinho ver a luz divina, e, que, portanto deixa-se guiar por ela, com as consequências, pessoais, e coletivas, das quais todos somos testemunhas; e se quisermos permanecer cegos, fazendo descaso da luz de Deus, quantos desastres, derrotas, tragédias, amarguras, teremos pela frente! Para evitá-las na sua bondade Deus nos fez dom da sua luz, para que possamos ver a estrada justa no caminho desta vida, a estrada que tem como meta ele, luz do mundo.

Como diz Bento XVI: "o domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9,35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n'Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».

padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento

A liturgia de hoje continua a catequese batismal da quaresma. Vimos o símbolo da água, com o episódio da Samaritana. Hoje prossegue o tema da luz, com a cura do cego. E veremos o tema da vida, com a ressurreição de Lázaro... As leituras nos lembram a Luz da fé recebida no batismo com a vela acesa na mão, e também nos exortam a "viver na Luz".

Na 1ª leitura Davi é ungido para rei de Israel. (1Sm 16,1b.6-7.10-13a)

A unção de Davi, eleito pessoalmente por Deus, é figura profética da unção batismal dos cristãos.

Na 2ª leitura, Paulo salienta a necessidade de viver como filhos da "luz", renunciando as obras das trevas e produzindo frutos de bondade, justiça e verdade  (Ef 5,8-14)

No Evangelho, Jesus unge um cego com "barro", revelando-se como a "Luz do mundo", que veio libertar os homens das trevas. (Jo 9,1-41)

São João costuma tomar um fato da vida de Jesus como ponto de partida para desenvolver um tema básico da mensagem cristã. A cura do cego descreve o processo de fé de um homem, que vai passando das trevas da cegueira, para a luz da visão, e desta para a Luz da fé em Cristo.

O "cego" é símbolo de todos os homens que renascem pela fé, acolhendo a Jesus (no batismo) e deixando-se conduzir pela sua palavra.

Tudo começa com uma pergunta dos discípulos a Jesus: "Por que esse homem nasceu cego?"Seria castigo de Deus? Quem pecou?

Jesus responde: "Nem ele, nem seus Pais pecaram..." E continua a sua resposta, passando das palavras aos atos.

Na cura, para dar a "luz" ao cego, Jesus usa um método estranho: com saliva faz "barro" na terra, unge com esse barro os olhos do cego e manda lavar-se na piscina de Siloé. A cura não é imediata: requer a cooperação do enfermo. A disponibilidade do cego sublinha a sua adesão à proposta de Jesus. O banho na piscina do "enviado" é uma alusão à "Água de Jesus". Lembra também a água do batismo para quem quiser sair das trevas   para viver na luz, como Filhos de Deus...

Depois, o Evangelho coloca em cena vários personagens:

- os vizinhos percebem o dom da vida que vem de Jesus, mas não dão o passo definitivo para ter acesso à Luz. Representam os que percebem a proposta libertadora de Jesus, mas não estão dispostos a sair da sua vidinha, para ir ao encontro da "luz";

- os fariseus conhecem a "luz", mas se recusam em aceitá-la. Acusam-no de transgredir a lei do sábado e expulsam o cego da sinagoga. Representam aqueles que conhecem a novidade de Jesus, mas não estão dispostos a acolhê-lo e até hostilizam os seus seguidores;

- os pais constatam o fato, mas evitam comprometer-se...

É a atitude de medo dos que não tem coragem de passar das trevas para a luz. Preferem a segurança da ordem estabelecida, do que correr riscos...

O cego é questionado pelas autoridades sobre a origem de Jesus. E ele, como "pessoa iluminada", mostra-se: livre (diz o que pensa); corajoso (não se intimida); sincero (não renuncia à verdade); suporta a violência (é expulso da sinagoga).

Jesus reaparece no fim: vai ao seu encontro, inicia um diálogo, que culmina com um belo ato de fé do cego: "Eu creio, Senhor".

A transformação do cego é progressiva: antes de se encontrar com Jesus, é um homem prisioneiro das "trevas", dependente e limitado. "Não sabe quem o curou"...- Depois, a "luz" vai brilhando aos poucos na sua vida. Forçado pelos dirigentes a renegar a "luz" e a liberdade recebida, recusa-se a regressar à escravidão. Finalmente, encontrando-se com Jesus, que lhe pergunta: "Acreditas no Filho do Homem", manifesta sua adesão total: "Creio, Senhor". Prostra-se e o adora.

O Caminho de fé do cego é um itinerário para todo cristão:o encontro com Jesus ... a adesão à "luz" e um progressivo amadurecimento no Conhecimento de Cristo. Esse caminho desemboca na adesão total a Jesus, ao ser lavado pelas águas batismais.

O prefácio sintetiza: "Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas. E elevou à dignidade de filhos os escravos do pecado, fazendo-os renascer das águas do batismo".

Nesta quaresma, somos convidados a viver a experiência catecumenal, renovando o nosso Batismo, mediante o sacramento da penitência.

Quanto mais buscamos Jesus como "Luz", mais nossa vida terá sentido. Com Jesus, a Luz da Vida jamais perderá o seu brilho.

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

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Cegueira e visão

As duas posturas diante dos sinais realizados por Jesus podem ser definidas como cegueira e visão. São a dos fariseus e a do cego de nascença. O incidente em torno da cura do cego revelou a cegueira dos fariseus e o alto grau de visão daquele que tinha sido curado. Tudo se define em torno da capacidade de confessar Jesus como o Messias, diante do testemunho de suas obras.

Os fariseus, aferrados aos seus esquemas mentais, recusavam-se a admitir que realmente foi Jesus quem restituíra a visão ao cego de nascença. Eles raciocinavam assim: as Escrituras afirmam que o Messias, quando vier, haverá de curar os cegos. Como o milagre tinha sido operado em dia de sábado e o Messias, no pensar deles, seria fidelíssimo às leis religiosas do povo; e já suspeitando de Jesus, concluíram que ele não se encaixava na categoria de Messias. Embora não encontrassem explicação plausível para a cura do cego, não mudavam suas idéias a respeito de Jesus. Eles pensavam que Jesus não podia ser de Deus, pois era um pecador.

O cego de nascença, porém, adquiriu tanto a visão física quanto a visão da fé. Tendo sido procurado por Jesus, e dando-se conta de tratar-se do Messias, prostrou-se diante dele, fazendo sua confissão de fé: "Eu creio, Senhor!"

Só quem, de fato, "vê", pode fazer a experiência de fé; não quem se deixa enganar por falsos esquemas teológicos

padre Jaldemir Vitório

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A procissão quaresmal avança em direção à Páscoa. O caminho é longo e por vezes árduo. É preciso enxergar bem o caminho ou, ao menos, ter um guia com boa visão e prudência que nos oriente e ajude a chegarmos ao fim. Jesus é a luz que ilumina o caminho e aperfeiçoa a nossa visão. Ele é o Pastor que nos guia para o caminho mais seguro. O ambiente da celebração é cheio de alegria. Este domingo se chamava laetare, que significa "alegra-te". Jerusalém é chamada a se alegrar porque ela vai ser muito consolada. Todos os caminhantes se alegram porque já veem o fim na luz que brilha com mais intensidade.

Os que caminham para o Batismo são ungidos com o óleo do Senhor. A unção feita com o óleo abençoado e consagrado indica que a pessoa ungida foi escolhida por Deus. Ela se une profundamente a Deus pelo Espírito Santo que se apodera dela e começa a trabalhar na implantação do Reino de Deus neste mundo. Todos os demais, penitentes e fiéis, iluminados por Cristo, sabem que agora são luz no Senhor. Os penitentes têm consciência de terem dificultado a irradiação da luz que está neles e querem se converter. Os fiéis, como o cego curado por Jesus, se prostram e afirmam: "Eu creio, Senhor".

Andamos nos caminhos de um mundo conturbado, mas não triste. O mundo de provações é também um mundo de acertos e vitórias. Nele há dificuldades naturais e dificuldades criadas por nós mesmos. Aí está o pecado a ser removido na Quaresma. A criação geme por querer gerar vida e nós a envolvemos de morte. Os penitentes, iluminados pela luz de Cristo, pedem perdão por tornarem os caminhos ásperos e difíceis, por perturbarem o clima, as águas, a fauna e a flora. E volta a esperança pascal da ressurreição de tudo.

1Sm. 16,1b.6-7.10-13a – Samuel ungiu o jovem Davi com óleo para mostrar a todos que Deus tinha escolhido Davi para a função de pastor e guia do povo de Israel. Davi foi ungido para ser rei. Todos nós fomos ungidos com o óleo santo no Batismo e na Crisma. Somos ungidos quando estamos doentes e o corpo está fraco, e alguns são ungidos para o serviço sacerdotal. Quem foi ungido foi escolhido por Deus e merece todo respeito. Eu devo ser respeitado e devo respeitar os outros.

Sl. 22 (23) – Quem governa é pastor e guia do povo. Não deixa faltar nada a ninguém e procura o necessário para que todos tenham água salubre e alimentos saudáveis. Às vezes, a vida é um vale tenebroso, que atravessamos sem medo, porque o firme cajado do pastor nos dá segurança.

Ef. 5,8-14 – Antes éramos trevas. Agora somos luz. Tudo o que é luz se deixa ver. Todos podem ver que somos luz pela nossa bondade, pela justiça e pela verdade que praticamos.

Jo 9,1-41 – Um cego de nascença é curado por Jesus, o que gera uma enorme discussão, sobretudo entre os chefes de Israel. O cego e Jesus são chamados de pecadores. Na realidade, o verdadeiro cego e real pecador é aquele que não quer ver a vida iluminado pela luz de Cristo. O cego de nascença não é pecador. Não foi castigado por Deus com a cegueira. O verdadeiro cego enxerga, mas não quer ver, para não se converter.

 

cônego Celso Pedro da Silva

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Jesus manifesta-se a luz da bondade

O evangelho de João tem como uma de suas principais características os longos diálogos de Jesus, carregados de simbolismo e que se desenvolvem a partir de cenas impregnadas de realismo e suspense. A mensagem central do diálogo de hoje é a acolhida à revelação de Jesus, enfatizada pelo contraste entre o "ver" e o "cego". No texto encontramos 14 vezes a palavra "cego" e 18 referências ao "ver".

Os fariseus continuam cegos e expulsam da sinagoga aquele que vê. Aqueles que na Lei de Israel acham que vêm tudo, na realidade, como cegos, não vêm a novidade da luz de Jesus. Por três vezes há uma referência à expulsão da sinagoga: os pais do cego curado "tinham medo dos judeus pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Cristo"; o cego finalmente é expulso da sinagoga; e Jesus fica sabendo que o expulsam. Há aqui uma alusão do evangelista ao fato de os cristãos originários do judaísmo, os quais até então freqüentavam as sinagogas, terem sido expulsos das mesmas pelos chefes fariseus, cerca do ano 80. Isto porque estes fariseus pretendiam rigidamente reencontrar sua identidade judaica através a estrita observância da sua Lei, uma vez que com a destruição do templo de Jerusalém no ano 70 pelos romanos, esta identidade ficara abalada.

O texto da primeira leitura, surgido no ambiente das elites do palácio real e do Templo de Jerusalém, exalta a figura de Davi, "de belos olhos e aparência formosa", com o "Espírito do Senhor". Contudo Jesus, com a proclamação de sua Boa Nova, denunciou e rejeitou o centralismo de poder político e religioso no Templo de Jerusalém e a sua opressão, que tem raízes na tradição da realeza davídica.

Denunciou também a hipocrisia das aparências que ocultam ambição de poder e dominação. Em Jesus manifesta-se a luz da bondade da justiça e da verdade, que revela os segredos ocultos.

José Raimundo Oliva

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O cego de nascença: vê, acredita, anuncia

O caminho em direção à Páscoa encontra-se marcado por grandes temas catequético-batismais: o tentador a vencer, o rosto de Cristo a contemplar, os símbolos da água, a luz, a vida. No Evangelho deste Domingo é central a figura de Jesus-luz: é Ele que vê e vai ao encontro do cego, espalha-lhe lama nos olhos, e o manda a lavar-se na piscina de Siloé (que significa Enviado). O cego vai, lava-se, e regressa capaz de ver (v. 1.6-7). O sinal é claro, mas só para quem sabe ver. É mesmo aquele milagre tão evidente de Jesus que se torna um sinal de contradição: do mesmo acontecimento partem duas reações (do cego e dos fariseus) em direções opostas.

O cego avança, gradualmente, para a descoberta do rosto-identidade de Jesus: de simples homem, a profeta, homem de Deus, Senhor... até se prostrar com fé: "Creio, Senhor!" (v.38). O cego já chegou à conversão: todo iluminado, no corpo e no espírito. Enquanto o cego progride na descoberta de Jesus, os fariseus, ao contrário, fecham-se cada vez mais à luz, não acreditam no testemunho do cego curado, reduzem-no ao silêncio e atiram-no para fora (v.34). A obstinação do coração conduz à cegueira interior. Infelizmente, a fé também se pode perder! Só quem aceita que a verdade lhe transforme a vida não terá medo da luz, do amor, do serviço... Vale a este propósito, o voto de S. Agostinho, bonito mesmo em latim: "Servum te faciat caritas, quia liberum te fecit vertias" (a caridade te faça servo, pois que a verdade de fez livre).

"Mais luz!": foram as últimas palavra de Johann W. Göthe. Jesus, com a palavra e o sinal, traz a luz nova que esclarece mesmo a realidade do pecado presente no mundo. O pecado é aquela vasta zona obscura, em que vivem as pessoas ainda não iluminadas pelo Evangelho. Nessa zona obscura não se entende o sentido da doença, da dor, da desgraça, males que frequentemente estão ligados a pecados pessoais. Emblemática a este propósito é a história de Job. Os próprios apóstolos são um bom exemplo desta mentalidade: ao verem o cego de nascença, perguntam ao Mestre: "Quem pecou, ele ou os seus pais?" (v.2). Este é um esquema tipicamente pré-cristão do problema do sofrimento: identificar a dor ou a doença com o pecado, com o mau olhado, o malefício, o mau agoiro de alguém... É uma mentalidade muito espalhada, mesmo em ambientes cristãos, típica de pessoas ainda insuficientemente evangelizadas. Penso nos meus anos de trabalho missionário na R. Dem. do Congo, onde os problemas e o medo do ndoki (em língua lingala, o mau olhado e coisas semelhantes) estavam sempre na ordem do dia: muitos cristãos, incluídos alguns catequistas, ainda não se tinham libertado disso completamente. Também na América Latina e na Europa tenho visto situações semelhantes. Toca-se com a mão o fato que o paganismo (com as suas extensões) é sinônimo de treva, medo, vingança, manobras tenebrosas... que serpenteiam abundantemente também entre os cristãos, de todas as latitudes. O coração humano nunca se converte completamente. A ação missionária da Igreja não se contenta com uma evangelização superficial, mas deve apontar ao coração das pessoas e aos valores das culturas, como bem ensina Paulo VI. (*)

É possível sair desta mentalidade paganizante somente fazendo um caminho de conversão permanente, aceitando interiormente e até ao fim a Cristo que disse: "Eu sou a luz do mundo" (v. 5), "a verdade vos fará livres" (Jo 8, 32). É a exortação clara de S. Paulo (II leitura) a comportar-se como filhos da luz (v.8; cf. Mt. 5,14), a não participar nas obras infrutuosas e vergonhosas das trevas (v. 11-12), mas a olhar para Cristo: "Desperta ... e Cristo te iluminará" (v. 14). Cristo é a luz, é Ele o Enviado (v. 7) do Pai, o banho no qual nos imergimos com o batismo.

A luz de Cristo ajuda a entender o sentido da doença e da dor, como se aprende com o testemunho paciente e silencioso de tantas pessoas doentes, mas interiormente serenas. A fé é uma luz nova que permite colher a mensagem de vida presente na dor, a oportunidade de purificação e de salvação, para si e para os outros. A fé leva a confiar em Deus, o Pastor que nos guia nos caminho seguros (Salmo responsorial). Ele tem vias e critérios diferentes dos nossos (1ª leitura): "o Senhor vê o coração" (v. 7) das pessoas, como se vê na escolha de David. Era o mais pequeno, um pastor (cf. Lc. 2,8), mas Deus faz dele um rei. Os critérios de Deus são surpreendentes: cura o cego, um mendigo (v. 8), um expulso (v. 34), revela-se a ele, faz dele um crente, uma testemunha, um anunciador convicto (v. 30-33). Como tinha feito com a Samaritana (cfr. Domingo passado). Deus surpreende-nos: prefere escolher os últimos para fazer crescer o seu Reino no mundo.

padre Romeo Ballan

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(*) "Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade... Chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação... Importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem". (Paulo VI - Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (1975), n. 18.19.20)

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"Somos cegos?" – Claudinei Oliveira

 

Domingo,  03 de Abril de 2011.

 

Evangelho - Jo 9,1-41

 

 

Neste quarto domingo da quaresma somos convidados a voltar para Deus e enxergar as maravilhas reservada para nós. Ainda é tempo de reconciliar com os irmãos, pedir perdão dos pecados e preparar para a grande festa da Páscoa. Momento forte no calendário cristão. Passar da morte para a vida ou das trevas para a luz. Abandonar os empecilhos do cotidiano que atrapalha o olhar para Deus e contemplar a felicidade.

 

Caminhar com Jesus é assumir a cumplicidade da fidelidade assumida no batismo. É acreditar que o Criador permanece atuando em nossas vidas e por isso confiamos  nas Palavras disseminadas pelo Santo Evangelho. Palavras que confortam, solidarizam e curam as doenças que impedem conhecer melhor o Ressuscitado.

 

Reserva também para este  quarto domingo da quaresma  a alegria. A alegria de saber que nosso Deus ressuscitará dos mortos e vai para junto do Pai. A alegria de ser feliz por pertencer a Graça e a Glória de Deus. A alegria de pudermos construir em comunidade o caminho que nos levará para a salvação com os olhos bem abertos. Contudo, de saber que a cegueira que impede  as ações legais para com aqueles que tanto precisam de ajuda, deu abertura sistemática para novo olhar, um olhar diferente, sem amarras e sem recompensas.

 

O evangelista João transcreve uma atitude de Jesus ao curar um cego de nascença. Mas indagado pelos discípulos referente quem tinha cometido o pecado para o surgimento da cegueira, a resposta não poderia ser outra a não ser de uma lição para quem decidiu entregar de coração no projeto da libertação: Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais? Qual seria então a dúvida dos discípulos? O que levou aos discípulos, acostumados com situações adversas, a fazerem esta pergunta?

 

Jesus não vacilou e delineou argumentos de relevância excepcional. : 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. Não que Jesus é oportunista para convencer os incrédulos, mas  observou o momento certo para descrever que as obras de Deus só é possível vê-las com os olhos bem abertos. Mas de qual olho Jesus estava falando: dos olhos da fé. A falta de fé do cristão não  é conseqüência dos pais, mas é o não comprometimento com a missão de Jesus. Assim a fé pode alcançar o invisível maravilhoso  da Criação. Andamos por todos os lados, fazemos coisas de valores singulares, criamos imagens e construímos lugares valiosos, mas NÃO enxergamos o dedo de Deus. Ou seja, a fé não ultrapassou o campo visionário do eu.

 

A libertação do povo escravizado do Egito por Moisés representa a fé-compromisso do Senhor com o povo escolhido. Não houve somente a libertação da opressão, dos maus-tratos e da violência física. Houve sim, a libertação  total  da cegueira em que o povo de Israel tinha se adquirido. Vivia para o homem terreno e não para o Homem-Deus. Era preciso fazer este povo enxergar para transformar o modo de viver. Permanecendo cegos não enxergariam  a luz da vida; não colocariam Deus como Luz para guiar os caminhos retos e serenos. Assim, como o homem cego que Jesus curou com a saliva misturada no barro  e quanto ao povo liberto da escravidão do faraó do Egito,   foram momentos oportunos para receber a manifestação  da ação de Deus.

 

O cego de nascença, então vai até a piscina de Siloé, como Jesus havia indicado para lavar os  olhos, e, passou a enxergar. Momento de louvor e gratidão a um Homem que vivia pregando e fazendo o bem para todos, sem exclusão de raça ou cor,  e nem importava o dia, pois era sábado, tradicionalmente não se  realizava milagres ou curas. Deixou todos espantados: nossa como pode aquele cego de nascença enxergar! Não era aquele mendigo que vivia pedindo esmola! Quem foi que te curou? Conte-nos! Precisamos saber! Mas, é verdade mesmo que você foi curado! O pobre homem  solícito às indagações respondeu: 'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver.' Surpresos ficaram ainda mais os curiosos, pois, de repente, um homem "vadio", vivia perambulando pelas ruas da cidade, ser curado pelo Pregador! Mas não deixaram barato a situação. Levaram o homem para ser indagado pelos fariseus: vamos ver ser está falando a verdade mesmo.

 

Corajoso, enfrentou de frente e sem medo às indagações dos fariseus e confirmou que foi um profeta. Mostrou serenidade para os fariseus mesmo correndo o risco de ser condenado por fazer tal afirmação. Este sim recebeu a luz verdadeira de Cristo. Abraçou a causa confiada do projeto do Pai.  Mostrou que tinha fé, ou seja, renasceu para a vida.

 

A proposta que é colocada diante de cada um de nós visualiza algo mais do que executar pequenas tarefas corriqueiras. A proposta é acolher o dom da graça e fazer valer o sacramento do batismo. A luz que recebemos e a água que lavou os pecados transformaram-nos em pessoas "sagradas" de Deus. Temos agora compromissos sérios. Olhar para o povo que esta a nossa volta e não deixar se perder pelos vícios atraentes. Temos ainda a obrigações  diante da fé expressada nas orações e pedidos  de zelar pelos oprimidos, dar carinho àqueles que ficam isolados e sem rumo.  Mostrar o caminho que leva a Deus. Caminhar junto, lado a lado.

 

Mesmo com sinais visíveis da presença de Deus ainda duvidamos da sua interação. Ao voltar a enxergar  o homem mostrou que não duvidava de Jesus e ainda preservou seu nome. Mesmo os judeus tentando  sua negação, ele foi firme  e não hesitou em falar a verdade. 'Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?'. Quantos cegos ainda existem e quantos surdos também existem. Passam pela vida, recebem tudo gratuitamente e ainda tem que encontrar provas da existência do Salvador. Por que tantas dúvidas? Por que tantas necessidades da prova de Deus? Resposta: porque a fé é pequena para enxergar a gratuidade de Deus.  Mas por que não aumenta a fé? Resposta: porque ainda não aprendeu a amar Deus e nem aos irmãos.

 

Contudo, a certeza da fé também pode levar ao erro. É preciso morrer para poder viver novamente. Isto é, é necessário ficar cego para voltar a enxergar com os olhos de Deus. Esta idéia da certeza ou da oração sem o fundamento do Santo Evangelho não passa de engodo. Viver a palavra de Deus é viver a essência dos ensinamentos. Prova está nas palavras de Jesus aos Judeus. 'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem se tornem cegos. Jesus não quis confundir os judeus. Mas apresentar a eles que  ha outros meios para acreditar. As verdadeiras pregações  que tiram o homem do pecado são proferidas por pessoas humildes e simples que aprenderam a amar Deus. Logo, o andarilho que vivia pedindo esmola para sobreviver tinha mais fé do que os fariseus que não saiam do templo e conheciam todos os mandamentos.

 

Portanto, a fé é a luz que ilumina nossa vida e dá força para nossa caminhada.  Na frente está nosso Pai que nos conduz seguramente por longas jornadas corretas. Damos as mãos para este Deus e sigamos contentes para nova vida. A certeza de que na nova morada estaremos confortados  nos braços de Cristo. Amém.

 Abraços,

Claudinei Oliveira.

 

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O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

JO 9, 1-41

No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como a luz do mundo. Entretanto, percebemos que não é uma luz que impõe ser vista indiferentemente por todos, mas aquilo que se constata através de sua ação na cura de um cego, é que algumas pessoas começam a ver e outras permanecem cegas, tudo depende da atitude de cada um de nós.

No início do relato, Jesus vê um cego de nascença e decide curá-lo por iniciativa própria, ninguém lhe pede para fazê-lo. Mas os discípulos ficam refletindo uma idéia muito difundida (não só no mundo de então, mas forte ainda hoje) segundo a qual toda doença é castigo de Deus pelo pecado. Assim, eles perguntam a Jesus se a causa da cegueira do mendigo foram os pecados dele ou dos seus pais.

Isto não é completamente ilógico, já que freqüentemente muitos de nós somos tentados a pensar que os males físicos e psíquicos de uma determinada pessoa seja culpa dos pais; por exemplo, se uma criança nasce com AIDS não é culpa sua obviamente, e talvez nem mesmo de sua mãe; pais briguentos podem provocar nos filhos traumas psicológicos, tornando-os doentes.

Mas no caso do cego em questão, Jesus desmente categoricamente aquela convicção: "Nem ele nem os seus pais pecaram"; a cegueira do mendigo, como qualquer outra enfermidade, não depende sempre de específicas culpas de alguém nem de Deus, que não é vingativo, mas aquele homem assim nasceu para que as obras de Deus se manifestem nele.

Jesus cura o cego. E os olhos que ele curou para ver o sol, abrem-se gradativamente para ver aquele que lhe curou. O milagre suscita uma discussão entre os presentes e conhecidos. Há uma tentativa de afastar a verdade. Duvidam da identidade do homem curado "não é ele, mas alguém parecido com ele". Porém, o ex-cego afirma sua identidade "sou eu mesmo!", ainda que não saiba dizer nada sobre Jesus nem sobre onde eles possam encontrá-lo.

Em seguida, ao encontrar os fariseus, estes se escandalizam e sustentam que, tendo feito Jesus o milagre em dia de sábado quando é proibido qualquer trabalho, era um pecador: portanto, devia ser evitado; mas à inconfundível consideração do curado, surge uma divergência entre eles, pois ficam se perguntando como é possível um pecador fazer tal sinal?

Os fariseus se interessam normalmente só com o "como" Jesus fez isso (dia de sábado), de onde concluíam que ele era um pecador. O fato da cura em si não tinha nenhum significado para eles. Mas depois de terem colocado todos os pretextos e tentado subornar a família do cego que arriscava ficar toda ela expulsa da comunidade, ficava agora obrigatória tomar uma posição com relação à pessoa de Jesus.

Aí é onde entra a inconformidade do curado com os fariseus. Pois ele é consciente da relação perfeita que há entre Jesus e Deus. "Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo". "Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade". Para o cego curado, a cura torna-se verdadeiramente um sinal que o leva a reconhecer o vínculo entre Deus e Jesus. Os fariseus continuaram resistindo em não querer enxergar e endureceram o coração, expulsando o homem da comunidade.

É triste! Não há pior cego que o que não quer ver; e a cegueira espiritual é pior que a física, onde diante da evidência alguém permanece emperrado nos próprios preconceitos, fechando os olhos para a realidade.

O episódio se conclui com a revelação do significado profundo do prodígio. Encontrando de novo o homem curado, agora expulso da comunidade, Jesus o convida a valer-se da vista recuperada para reconhecê-lo: "você acredita no Filho do Homem?" "E quem é? para que creia nele"? "Tu o estás vendo, é aquele que está falando contigo". Como com a samaritana do domingo passado, tudo caminha para a mesmo finalidade.

A luz dos olhos é metáfora da luz da alma. O cego de nascença é cada homem, cada mulher, incapaz de sozinho ver a luz divina, e, que, portanto deixa-se guiar por ela, com as conseqüências, pessoais, e coletivas, das quais todos somos testemunhas; e se quisermos permanecer cegos, fazendo descaso da luz de Deus, quantos desastres, derrotas, tragédias, amarguras, teremos pela frente! Para evitá-las na sua bondade Deus nos fez dom da sua luz, para que possamos ver a estrada justa no caminho desta vida, a estrada que tem como meta ele, luz do mundo.

Pe.Carlos Henrique Nascimento 

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Deus é luz e clareia nossa escuridão

Estamos no tempo da quaresma e celebrando a Campanha da Fraternidade. A proposta que a Igreja faz não é só a nós católicos, mas, principalmente a nós. Reflitamos sobre a sustentabilidade do planeta, sobre a ecologia, sobre a vida de todos os seres sobre a terra. Queremos gritar Fraternidade e Vida no Planeta. Diferente de outras épocas, nosso grito hoje é por sobrevivência. Ou mudamos nossa conduta, nosso consumo e nossa relação com as pessoas e com a mãe terra ou morreremos todos.

As três leituras bíblicas que nos são apresentadas hoje, falam de algo que tanto precisamos: a Luz.

A partir dos conflitos do Oriente Médio, percebamos a importância da Luz. Não falo da luz divina como aquela percebida apenas pelos que creem. Falo da Luz que ilumina nossa humanidade para sermos somente o que podemos e precisamos ser: homens e mulheres feitos à imagem e semelhança de Deus.

As catástrofes naturais do Japão precisam ser iluminadas pela Luz de Deus que ali deve ser personificada na esperança, no amor e na solidariedade. Devem também nos levar à discussão de nossas matrizes energéticas, de nossos potenciais de transformação do meio em que vivemos. Este ano, a CF nos convoca a proclamar Fraternidade e Vida no Planeta. O versículo de Romanos 8,22 nos diz que a Criação geme em dores de parto. Dor de parto é dor que tem fruto. A natureza e toda a criação ainda mostram reações possíveis.

 Os textos do Primeiro Livro de Samuel, da Carta aos Efésios e do Evangelho de São João, carregam em si a mensagem de Deus iluminador, dissipador de trevas, de preconceitos e de aparências. Estamos reunidos para celebrar essa bela realidade.

A primeira Leitura, I Sm 16, nos mostra a revelação de Deus a nos dizer o tempo todo que as aparências enganam, que Ele não se pauta por elas, que o que importa não é o externo e nem mesmo as belezas passageiras, mas aquilo que trazemos dentro de nós. Samuel procura a quem ungir e se enganaria se não ouvisse a voz do Senhor. "O Senhor, contudo, disse a Samuel: Não considere sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração."

No evangelho, Jo 9, vemos a cena da cura de um cego de nascença. Jesus se coloca como aquele que é a luz do mundo. Não pode viver nas trevas quem é tocado pela graça de Deus. Em vim para que todos tenham vida e vida em abundância, dirá Jesus no capítulo seguinte a este texto, em Jo 10,10. A vida em abundância se dá quando vemos nossa realidade, quando julgamos esta realidade e quando agimos para transformá-la através de nosso fazer. O método Ver Julgar e Agir, tão propagado pela metodologia da Igreja na evangelização está presente na reflexão de hoje. Jesus diz àqueles que não acreditam em sua força transformadora que estão mortos porque veem com os olhos, não leem a realidade e tão pouco agem para transformá-la. Ponto alto do texto de hoje é a profissão de fé corajosa do ex cego: - só sei que Ele fez lama com terra e saliva, colocou em meus olhos, mandou-me banhar e estou vendo. Ele é um Profeta –  A cura se dá também pela reintegração na comunidade.

Em tempo de Quaresma e de Campanha da Fraternidade, precisamos entender a mensagem iluminadora de Jesus que abre nossos olhos. A criação geme em dores de parto. A humanidade chora a devastação da natureza. As grandes cidades sangram com a atual ecologia humana onde as pessoas valem pelo que aparentam e teem e não pelo que são verdadeiramente. Todo este sofrimento pode ser passageiro, pode ser como a dor de parto, pode ter fruto, pode ter resultado. Repetindo o refrão do Hino da CF – Vai depender só de nós – lembremo-nos que de nós dependem nossas ações individuais e coletivas. Dentre estas, está a de exigir de nossos governos que tenham ações concretas simples como a coleta seletiva de lixo, a limpeza de nossos rios, a contenção e manutenção das encostas de nossas comunidades empobrecidas e o compromisso de assinar os tratados internacionais de preservação do planeta. Claro que não jogar lixo nos rios, reutilizar os objetos, consumir conscientemente, não utilizar sacolas plásticas dos supermercados já é usar a Luz que a celebração de hoje nos suscita, mas, podemos muito mais que isso. Fiquemos atentos! Exijamos de nossos governantes, políticas globais de sustentabilidade do planeta para uma ecologia humana mais adequada a homens e mulheres que somos imagem e semelhança de Deus.

Da carta aos Efésios tiremos o versículo de alerta do Apóstolo Paulo: Vivam como filhos da luz!

E para que nosso compromisso com a Luz nos fortaleça e encoraje, o Salmo 22 vem nos afirmar aquilo que nos faz caminhar apesar do cansaço, nos faz ter um olhar de esperança para nosso Planeta e para nossa Ecologia Humana, apesar de toda a degradação em que vivemos: O Senhor é Meu Pastor, Nada me Faltará.

Ele é Luz! Clareia nossa escuridão!

Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara

 

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O tema da luz liga as três leituras da liturgia deste domingo: a primeira nos diz que aquele que não foi iluminado julga as coisas e o mundo com olhos humanos. O Evangelho nos apresenta o caminho que é preciso percorrer para chegar à luz. E a segunda leitura completa este tema indicando o que é preciso fazer para derrotar as trevas. Deus surpreende o profeta Samuel ao escolher Davi com critérios diferentes dos seus. Enquanto Samuel se baseia nas aparências, no porte físico, na beleza exterior, Deus olha o interior. Portanto, Deus avalia o ser humano pela sua consciência, pelas intenções que o movem a decidir e a agir. Ele não olha as aparências, porque elas enganam. Ele olha o "coração", a consciência. É necessário termos critérios sempre mais claros para evitarmos esses enganos. Deus não se engana e escolhe os últimos, pois é a partir deles que irá consolidar a justiça e o direito no meio do seu povo. Paulo escreve aos primeiros cristãos que com o Batismo eles passaram do mundo das trevas para o reino da luz. Por isso ser luz no Senhor pressupõe a rejeição e a denúncia das obras estéreis da escuridão que envolve a sociedade no egoísmo, na injustiça e na mentira. A proposta do texto é, portanto, de denúncia e desmascaramento desse sistema: "Tudo o que é desmascarado é manifestado pela luz" (v.13). O Evangelho deste domingo, conta-nos como Jesus cura o cego de nascença e nos ensina que foi enviado para trazer-nos uma água que cura qualquer cegueira. Cristo nos leva a superar um tipo de cegueira que não nos deixa ver corretamente o valor das pessoas nem avaliar com justiça nossas decisões. Precisamos da luz de Cristo para poder julgar e agir de modo mais coerente. Mostrou-nos o valor de cada pessoa, de cada irmão, principalmente o pequenino, o mais necessitado e indefeso, também, quem somos e o que Deus quer de nós. Ele é a luz que devemos seguir e da qual devemos deixar-nos guiar, para que tenhamos critérios mais claros para tomarmos decisões para avaliar as pessoas e as coisas, para agirmos em função do bem, da justiça, da paz, da fraternidade, enfim, de todos os valores profundos da vida, que libertam e não escravizam o ser humano. Quem se fecha em sua própria concepção, em seus próprios critérios e não se abre aos valores mais profundos, valores que Cristo nos faz enxergar, esse é que é o verdadeiro cego. Quais são os preconceitos e as cegueiras de hoje, que nos impedem de ver a luz de Cristo e ser luz para os irmãos?

 

Continuação dos gestos concretos que podemos realizar em prol da natureza:

1. Coma frutas e verduras (se orgânicas, melhor): carne de ovinos e carne de bovinos são responsáveis por 18% das emissões mundiais de gás carbônico, além de favorecer o desmatamento devido à sua exploração intensiva.

2. Escove os dentes, mas com inteligência: se deixar a torneira aberta, você joga fora trinta litros de água. Abra a torneira só quando for preciso.

3. Um banho é bom se dura pouco: em três minutos, você consome 40 litros de água. Em 10 minutos, mais de 130 litros em média.

4. Faça a coleta seletiva: é a contribuição mais inteligente e mais importante que você pode dar ao meio ambiente.

5. Pense sempre que todo objeto que você usa irá se tornar lixo: faça com que ele dure o máximo possível.

6. Usar e jogar fora? Não, obrigado. Por exemplo use pilhas recarregáveis: podem ser recarregadas até 500 vezes.

Retorno ao pai

Neste 4º domingo da quaresma, a Igreja celebra o segundo escrutínio para os catecúmenos que serão batizados na vigília pascal. Uma ocasião para acordar em cada cristão a graça deste sacramento de iniciação. Nas comunidades que acolhem os "eleitos", após a liturgia da Palavra, o padre procede aos exorcismos. Qual é a finalidade destes ritos cujo nome soa de maneira estranha? O gesto da imposição das mãos e as orações escolhidas ajudam os catecúmenos a discernir a presença do pecado e convida-os a implorar a Deus vir fazer sua morada neles. Pela invocação do Espírito Santo, a assembléia suplica ao Senhor inscrever a gravar a liberdade no coração destes crentes, selo indelével dos filhos de Deus. Durante quarenta dias, o Espírito conduz-nos com Jesus ao deserto para sermos tentados pelo diabo. Vocabulário ultrapassado, dirão alguns... E, no entanto, cada um de nós pode exclamar com são Paulo: "De fato estou ciente que o bem não habita em mim, isto é, na minha carne. Pois querer o bem está ao meu alcance, não porém realizá-lo. Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero" (Rm 7,18-19). Nós avançamos no caminho da purificação, jamais acabado e as dificuldades são inúmeras na estrada de retorno ao Pai.

Mas a fé fundamenta nossa esperança: em Cristo tudo se cumpriu. Com salmista, nós ousamos dizer: "Se eu tiver de andar por vale escuro, não temerei mal nenhum , pois comigo estás. O teu bastão e teu cajado me dão segurança".(Sl 23). Abrindo nossos olhos à luz da vida, o batismo fez de nós iluminados. Devemos, portanto, continuar a esforçamo-nos por produzir frutos "de bondade, de justiça e de verdade" (Ef 5,9).

Tal é o paradoxo cristão.

"Prions en Église"

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As leituras deste IV domingo da Quaresma propõem-nos o tema da "luz". Definem a experiência cristã como "viver na luz".

No Evangelho, Jesus apresenta-se como "a luz do mundo"; a sua missão é libertar os homens das trevas do egoísmo, do orgulho e da auto-suficiência. Aderir à proposta de Jesus é enveredar por um caminho de liberdade e de realização que conduz à vida plena. Da ação de Jesus nasce, assim, o Homem Novo - isto é, o Homem elevado às suas máximas potencialidades pela comunicação do Espírito de Jesus.

Na segunda leitura, Paulo propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus ("trevas") e que escolham a "luz". Em concreto, Paulo explica que viver na "luz" é praticar as obras de Deus (a bondade, a justiça e a verdade).

A primeira leitura não se refere diretamente ao tema da "luz" (o tema central na liturgia deste domingo). No entanto, conta a escolha de Davi para rei de Israel e a sua unção: é um ótimo pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia do nosso Batismo e que nos constituíram testemunhas da "luz" de Deus no mundo

Caminhemos na luz do Senhor

"De noite, todos os gatos são pardos". A sabedoria popular diz que quando a luz não é suficiente, o risco de confundir o real com o aparente é alto. Quando não há luz, as coisas não se vêem com a nitidez necessária. É a luz a que possibilita a visão. Não vemos a luz, senão o que vemos "na" luz ou, melhor dito, "na" luz.

A falta de luz leva-nos a não ver bem. Não vemos bem nem as coisas nem às pessoas. Sem luz, só acertamos em ver a aparência, nos esquecendo dos detalhes. Quando não há luz suficiente, não afinamos nem na visão nem no julgamento. Caminhar assim, "às apalpadelas", pode nos fazer inclusive tomar caminhos equivocados. E o que é pior: pode levar-nos a distanciar-nos totalmente da meta que perseguimos. Quando começamos a caminhar por um caminho equivocado, quanto mais caminhamos, mais nos desviamos e afastamos de nosso destino. Quem pode iluminar nosso caminho? Como acertar?

Lâmpada é tua Palavra para meus passos...

A primeira leitura de hoje ajuda-nos a compreender melhor a passagem evangélica do cego de nascimento: o Senhor não se fixa nas aparências, mais vê com o coração. Jesus é a Luz. Os fariseus não eram capazes de distinguir e reconhecer que naquele homem tão humano, Deus mesmo começava a se mostrar. Jesus é o Messias, o eleito de Deus. É, definitivamente, a Palavra de Deus cuja luz pode ver tudo de outro modo. Com Ele, caminhamos na luz. Com Ele, acertamos no caminho. É profeta, mas mais que profeta. Sua luz é especial. Sua maneira de ser e de viver nos ilumina a nossa maneira. A medida de nossa humanidade fica iluminada pela sua. Podemos aplicar a Jesus aquelas palavras do Salmo 118: "Lâmpada é tua Palavra para meus passos, luz em meu caminho". Jesus, a Palavra, é essa Luz capaz de nos fazer ver e de iluminar nosso caminho.

Galeria de personagens

Na passagem do cego de nascimento vão aparecendo algumas personagens que vão tomando postura ante a luz. Como se de um julgamento se tratasse, todos aparecem ante ele divididos. Não nos tem de resultar difícil nos encontrar em algum deles, ou comprovar que temos algo de muito deles. O cego de nascimento dá-nos conta de sua conversão. Ao sentir-se curado e iluminado por Jesus, converte-se em uma valente testemunha, não lhe importando o julgamento dos demais. Seus pais, por sua vez, jogam bolas fora. Vêem, mas não querem se complicar na vida. Os fariseus dizem ver mais não se inteiram ou não querem se inteirar de nada. Não necessitam da luz, já a têm. Preferem a cegueira de quem tem tudo já respondido e sua conseguinte segurança. No entanto, se gabam de ter uma grande visão. Os discípulos, não entendem, porém buscam. Nós também somos chamados a participar na cena: vês ou és cego? É na Luz que caminhas? A passagem da liturgia de hoje convida-nos a perguntar-nos pela fonte de iluminação de nossa vida; se vivemos ou não à luz de Jesus.

Fernando Prado Ayuso

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1. "Acreditas no Filho do Homem? … Quem é, Senhor, para que eu creia nele?… Tu o estás vendo: é aquele que está falando contigo!"

2. Deus envia ao mundo seu Filho como expressão máxima de sua bondade. Jesus se solidariza com as pessoas necessitadas e oferece-lhes uma vida saudável e íntegra: cura a cegueira, liberta o ser humano de toda espécie de opressão e ilumina o caminho dos que se encontram desorientados.

3. Jesus, em caminhada, vê o cego de nascença e toma a iniciativa de curá-lo. Ele o faz usando dois elementos: terra e saliva. Formam o barro, que lembra a criação no Gênesis: "Deus modelou o homem do barro" (2,7). A ação de Jesus visa recriar a pessoa, oferecendo-lhe vida nova. Conforme o pensamento da época, a saliva transmitia a energia vital da pessoa. Portanto, a energia divina de Jesus realiza a cura.

4. O evangelho de João aprofunda a identidade de Jesus narrando sete sinais. O sexto sinal é a cura do cego de nascença. A função dos sinais é dar a conhecer quem é Jesus, provocando uma tomada de posição a favor de Jesus e da vida (fé) ou contra ele e a favor da morte (rejeição).

5. O contexto do sexto sinal é: a festa das Tendas (cap.7) e a festa da dedicação(cap. 10).

5.1. Na festa das Tendas, o povo recordava o tempo do deserto. Era um acontecimento festivo que suscitava esperança nos sofredores. Nesse dia, o sacerdote ia tirar água da fonte Gion para com ela purificar o altar (note a oposição Gion x Siloé). À noi-te acendiam-se tochas sobre os muros a fim de iluminar a cidade. Detalhes esses im-portantes porque a cura do cego de nascença mostra que Jesus é a água que lava das cegueiras das alienações e a luz que faz brilhar os olhos da fé.

De fato, a cegueira lembra a alienação e o pecado. E o lavar-se na piscina recorda a imersão na água, sendo a luz símbolo da fé (os primeiros cristãos chamavam o Batismo de iluminação).

5.2. Na festa da dedicação liam-se textos do A.T. que falavam de Javé-pastor (p.ex. Ez. 34). Nesse sentido, o cego curado é a ovelha que Jesus tira do "curral" em que se encontrava.

6. O evangelho de João foi escrito quando os cristãos estavam envolvidos em graves dificuldades causadas pela hostilidade das lideranças político-religiosas judaicas e do império romano.

7. veremos: a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

b. libertando das trevas – vv. 6-7

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

8. O cego (símbolo do povo oprimido) é vítima de preconceitos religiosos com graves conseqüências sociais. O cego de nascença é um castigado por Deus. Alguém pecou e está pagando por isso (Ex. 20,5; 34,7). A sociedade estabelecida gerou esse preconceito e a única coisa que o cego pode fazer é pedir esmola (v .8): assim se perpetua sua dependência. Ainda mais. As elites intelectuais criaram uma teoria de que o feto podia, no seio da mãe, transgredir a lei de Deus. Mas Jesus vem manifestar as obras do Deus que o enviou: liberta os que viveram desde seu nascimento na alienação, na dependência e na opressão (v.3).

9. Jesus devolve à vida, devolve à luz: "enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo"(v.5). Este versículo se insere bem dentro da festa das Tendas (acendiam-se as tochas para iluminar…).

b. libertando das trevas – vv. 6-7

10. Isaías havia anunciado que o servo de Javé iria abrir os olhos dos cegos (Is 35,5: os olhos do cego se abrirão; 42,7: para que abras os olhos dos cegos; 49,6: te estabeleci como luz das nações; e o Sl. 146,8: Javé abre os olhos ao cego"). Jesus é esse servo que capacita as pessoas para enxergar as coisas (uma visão superficial) e sobretudo as situações que alienam e marginalizam (uma visão crítica). O gesto de Jesus é audacioso, pois transgride a instituição mais apreciada, a do repouso sabático (faz barro e unge – cf. 1ª. leitura) e ensina a transgredi-la quando a vida está em jogo (manda lavar-se).

11. A ordem de lavar-se na piscina de Siloé (que significa enviado) apresenta o caráter de novidade de toda a narração: nossas cegueiras começam a desaparecer quando nos lavamos naquele que o pai enviou. Aí nasce o homem novo (associe barro com a criação de Gn 2). Jesus é a água que lava e purifica e todos são convidados a se aproximar dessa fonte: lavar-se e purificar-se para enxergar.

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

12. Agora as atenções se voltam para o cego ungido, lavado e curado que se tornou discípulo. Aquele que fora cego procede por etapas: começa reconhecendo que - Jesus é homem (v. 11), isto é, alguém que sente em profundidade os anseios do ser humano (é o que faltava às classes religiosas constituídas do templo).

Depois progride na descoberta de- Jesus como servo enviado por Deus (v. 15; compare com Is. 42,6 e 49,6),- de Jesus como profeta (v. 17),- como aquele que vem de Deus (v.33), Filho do Homem,- e finalmente, Senhor, ajoelhando-se diante de Jesus (v.38).

13. A essas etapas de crescimento na fé corresponde a rejeição sistemática e crescente das autoridades religiosas daquele tempo.
13.1. O "cego curado" reconhece que Jesus é aquele ser humano. A essa primeira profissão de fé os fariseus respondem que Jesus não é humano por não respeitar as instituições. E o consideram pecador por colocar a vida acima da lei. Essa posição dos fariseus é a raiz da rejeição que culmina na morte de Jesus.

13.2. O discípulo afirma que Jesus é um profeta. Aí eles se agarram à tradição, e expulsam o homem da sociedade. Rejeitando o cego curado, rejeitam o próprio Jesus e a possibilidade de libertação. Não admitem que o povo – representado pelo cego – tenha uma visão crítica da sociedade (e de seus governantes) que o mantém na alienação.

14. O discípulo avança na fé em meio aos conflitos.

14.1. Primeiro vem a desconfiança dos vizinhos que antes viam o cego pedindo esmola (v. 8). O "cego curado" testemunha que é ele mesmo (v.9) e anuncia quem o libertou (v. 11). É o 1º. passo na fé.

14.2. Segundo: o conflito assume tons mais graves diante do inquérito dos fariseus (13-17), que sustentam um sistema que não permite que as pessoas se libertem (se desalienem, se curem da cegueira) e tenham acesso à vida. Os fariseus acusam Jesus de transgredir a lei e de ser pecador. E o cego curado responde com um testemunho corajoso: ele é um profeta! É o 2º passo na fé.

15. O inquérito se avoluma (vv. 18-23).

15.1. Os fariseus interrogam os pais daquele que fora cego. Estes, com medo de ser expulsos da sinagoga (vv. 22-23), não querem se comprometer e põem toda responsabilidade no filho.

É o 1º. risco: ter os laços familiares cortados por causa do testemunho.

15.2. O desfecho e o ponto alto do inquérito (vv.24-34) apresentam uma situação dramática: o curado é posto em xeque-mate: "Dá glória a Deus!" (= juramento).

15.3. O debate mostra quem é discípulo de Jesus e quem é seu adversário. O texto insiste no verbo "saber", e cada qual reafirma suas posições.

É o 3º. passo na fé: confessar que Jesus vem de Deus.

E é também o 2º. maior risco: ser excomungado (v. 34).

15.4. No AT não se verifica nenhuma cura de cego. Simplesmente se afirma que será tarefa do Servo de Javé (Is. 42,7). Mas as lideranças judaicas, – que sabiam disso, -tentam de todas as formas negar os fatos

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

16. Interessante notar que o cego "acredita mesmo, de verdade" em Jesus: quando ele lhe diz "vai lavar-te na piscina de Siloé…. o cego foi, lavou-se e voltou" para Jesus (v.6). A fé o faz realizar a palavra do Senhor e voltar à sua presença. No final do relato e após os inúmeros percalços Jesus vai ao encontro do "cego curado" e diz-lhe: "crês no Filho do Homem?"… Quem é, Senhor, para que eu nele creia?" … Tu o estás vendo, é quem fala contigo … Creio, Senhor!" (v. 35-38).

17. Situações antagônicas:

17.1. De um lado um homem simples e aberto a Deus: fé – encontro – presença – ida -volta – confiança na palavra e na pessoa – entrega – compromisso – testemunho -vida nova – homem novo.

17.2. De outro lado, homens cheios de si e de poder: não vêem, não querem ver e impedem quem quer ver. "Já vos disse e não ouvistes… isso é espantoso: vós não sabeis de onde ele é, e no entanto, ele abriu-me os olhos! … sabemos que Deus não ouve os pecadores… jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença… se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer" (vv. 27.30.31.32.33).

18. No encontro com Jesus (fora da instituição que o mantinha na cegueira e na mendicância -fora expulso) o cego curado dá o último e definitivo passo na fé: "Eu creio, Senhor!", e ajoelhou-se e prostrou-se diante de Jesus (v. 38).

19. Jesus veio a este mundo para o julgamento: para que vejam os que não vêem e os que vêem se tornem cegos (v. 39). João 3,18 afirma: "quem acredita nele não está condenado, quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do filho único de Deus". Os fariseus, crentes e auto-suficientes em deter Deus em suas mãos, se fecham à ação de Deus. Tornam-se assim cegos de tal cegueira que não conseguem ver nem a ação de Jesus nem o testemunho dos discípulos. E é nesse confronto justa-mente que se realiza o julgamento: "se vocês fossem cegos não teriam pecado. Mas como dizem que enxergam, o seu pecado permanece" (v.41). Este é o ponto alto em que Jesus desmascara e desqualifica os que mantêm o povo na cegueira da alienação, impedindo-o de ter acesso à Vida.

1ª leitura: 1Sm. 16, 1b . 6-7 . 10-13a

20. A unção de Davi é um acontecimento importante na história do povo de Deus e contrasta com a escolha de Saul. Saul era filho de um homem poderoso que criava jumentas e possuía empregados (1Sm. 9,1) e Davi, ao contrário, é o último dos oito filhos de Jessé e cuida do rebanho de ovelhas de seu pai (1Sm. 16,11a).

21. Saul descontentou a todos por causa da sua má administração política e acessos de loucura. Por isso, Javé o rejeitou, enviando Samuel para ungir Davi (16,1.13). Davi começou a organizar todos os que se achavam em dificuldades, endividados e descontentes (22,2). Surgia assim um novo poder, o poder popular que atende ao clamor dos necessitados.

22. O texto de hoje quer sublinhar que Deus não se deixa enganar pelas aparências. Samuel fica impressionado com o porte atlético de Eliab, o filho mais velho de Jessé. Também de Saul se diz que "dos ombros para cima era mais alto que todos" (9,2). Os critérios de Javé são outros: "não se impressione com sua aparência, com sua grande estatura, porque não o escolhi. Deus não olha como o homem: o homem vê o rosto, mas Deus vê o coração" (v.7). Deus não se engana pelas aparências e escolhe os últimos, pois é a partir deles que irá consolidar a justiça e o direito no meio de seu povo.

23. Samuel entendeu a lição. Tanto que não se sentaram à mesa para participar do sacrifício de comunhão até que o último não tivesse chegado (v.11b). Deus escolhe os últimos.

2ª leitura: Ef. 5, 8-14

24. Os capítulos 4-6 de Efésios formam a parte exortativa da carta. Caracterizam-se pela insistência em viver de acordo com a vocação a que fomos chamados. O v. 14, pertencente a um hino litúrgico, é que faz a ligação: "desperta, tu que dormes; levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará!"

25. A partir desse dado, Paulo focaliza a incompatibilidade entre trevas e luz, entre sono e estar acordado, entre segredo e denúncia. Pelo batismo os cristãos passaram das trevas para a luz. São luz enquanto permanecem no Senhor (v.8). E Paulo mostra as decorrências disso: "o fruto da luz é toda espécie de bondade, justiça e verdade" (v.9).

26. Trata-se de três dimensões que abraçam toda a vida da pessoa. Já no AT, particularmente nos profetas, bondade-justiça-verdade eram a síntese das relações justas e fraternas que traduzem o projeto de Deus na vida das pessoas. Essas dimensões regem a vida das pessoas e da comunidade. Por isso, ser luz no Senhor pressupõe rejeitar e denunciar as obras da escuridão, que envolvem as pessoas e a sociedade no egoísmo, na injustiça, na mentira. Bondade-justiça-verdade x egoísmo-injustiça-mentira! É questão de escolha!

27. Paulo não pretende afirmar que os cristãos detêm o monopólio da verdade, da justiça e da bondade e que o mundo pagão seja totalmente mau. Todavia, a sociedade dos destinatários da carta era marcada por deuses viciados, isto é, ídolos disfarçados de deuses mantenedores da maldade, da injustiça e da mentira. Assim sendo, a maldade, a injustiça e a mentira eram cultuadas.

28. A proposta do texto é denunciar e desmascarar esse sistema: "tudo o que é desmascarado é manifestado pela luz (v.13). Os cristãos e a Igreja também tem disfarces. Urge, portanto, "levantar-se dentre os mortos e ser iluminado pelo Cristo"(v.14).

Refletindo

1. Assim como o penúltimo domingo do advento é o quarto domingo da quaresma: o domingo da alegria. "Alegra-te Jerusalém, porque tua salvação superará a tristeza" é o canto de entrada que nos associa aos judeus que subiam em romaria a Jerusalém. O paramento litúrgico é rosa ( pois sua origem coincide com a tradicional festa das rosas, na Itália). Enchemo-nos de alegria com a renovação interior que a Quaresma nos traz e que dá força para continuar o caminho.

2. A alegria, que a liturgia evoca, é a da luz de Cristo que iluminará os que vão receber o batismo na noite pascal. Receber o banho no "Enviado" para receber nova visão. O batismo, na Igreja primitiva, era chamado "iluminação": iluminados por Cristo para uma vida nova.

3. A 1ª leitura apresenta a unção do rei Davi. Destacando a dignidade de rei e sacerdote, nos lembra Cristo-Ungido-Messias (Cristo significa Ungido e em hebraico, Messias), e ao mesmo tempo, nossa unção batismal em Cristo. Assim na liturgia batismal, o fiel é ungido em sinal de que ele é "Cristo com Cristo", membro do povo messiânico, luz que deve iluminar as trevas ao seu derredor. Ungido com Cristo para participar da missão do Cristo, profeta, sacerdote e rei. Nossa missão de cristãos hoje em dia nos faz sentir-nos "ungidos", "marcados com um sinal" para alguma coisa? Não para sermos "diferentes", mas para sermos os renovadores, os que dão um sentido novo a esse mundo e a essa natureza.

4. "Vai lavar-te na piscina do Enviado… foi… lavou-se… e voltou enxergando!" (v.6). O cego obedece a Palavra de Deus (para obedecer ou seguir uma palavra é preciso interiorizá-la), tem plena confiança (fé) naquele homem Enviado por Deus, e realiza o que ele mandou. Da fé nasce o milagre: voltou enxergando. Duas coisas importantes não podem passar desapercebidas: a fé e a entrega total nas mãos e nas palavras daquele homem (são elas que operam a maravilha de Deus). … e não dá para esquecer que ele volta para agradecer.

5. Qual a reação do cego? Volta deslumbrado com a visão que lhe fora devolvida por aquele homem que ele vai professar profeta, enviado de Deus e Senhor. Enquanto isso a multidão dos "curiosos" (como sempre!) – incrédula – ficou fazendo perguntinhas e respostinhas. Acreditar mesmo que é bom, nada! É preciso chegar perto do Senhor para deixar-se "iluminar" pela sua luz, para banir nossas escuridões (e coisas mais…). Quem não se encontra pessoalmente com o Senhor Jesus Ressuscitado (que antes passou pela morte!) não consegue ver a "luz", a vida nova que brota da sua Palavra e que renova e plenifica a vida.

6. Para que aconteça a vida nova é preciso antes ouvir a Palavra de Deus, depois interiorizá-la, depois colocá-la em prática. Se assim não for, nada acontece. Encontrar-se com Jesus, ouvi-lo, acolhê-lo, ir lavar-se (limpar-se, esvaziar-se de si e de tudo o que não presta)… e aí, sim, acontece (acende-se) a Luz de Cristo que transforma e dá sentido novo e pleno à nossa vida. Bem-aventurados os puros de coração… porque "verão" a Deus.

7. O sentido profundo de tudo isso é que o batizado deve ser uma testemunha da luz que recebeu. O cego de nascença nos dá o exemplo: ele testemunha o Cristo, com convicção e firmeza sempre crescente. O batizado é o homem da luz (filho da luz, diz a Bíblia), alguém que enxerga com clareza (sabe o sentido das coisas e da vida) e que anda na Luz. Pois a luz não é só para ser contemplada, mas para caminharmos nela, realizando as obras que ela nos permite enxergar e levar a termo. "Outrora, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor… Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará" (2ª.leitura).

8. Jesus abre os olhos ao cego de nascença pelas águas de Siloé. Jesus cura um cego, mas a cura só é completa na profissão de fé: é preciso ver Deus em Jesus Cristo. O presente evangelho -narra a cura (vv.1-7); -narra o amadurecimento da fé no confronto com a incredulidade e a repressão (vv. 8-34) e -narra a auto-revelação de Cristo como resposta à busca do cego e à sua profissão de fé (vv.35-39). A auto-revelação de Cristo é: "Eu sou a luz do mundo" (8,12). O cego consegue ver esta luz e torna-se "filho da luz" (12,36). Os fariseus (que se diziam sábios e conhecedores da lei e que viam) se recusam a ver a luz que veio ao mundo: eles são os verdadeiros cegos. Assim a luz se transforma, para eles, em julgamento e condenação. Eles não querem fazer o que o cego fez: acreditar e aceitar Jesus Cristo!

9. Fica sempre a liberdade de decisão e de escolha: com o cego ou com os fariseus. Não dá para ficar neutro.

10. O Senhor é a luz do mundo, quem o segue não anda nas trevas!

Iluminai, Senhor, os nossos corações com o esplendor da vossa graça!

O Senhor é o pastor que me conduz...

Ele me guia no caminho mais seguro...

prof. Ângelo Vitório Zambon

1. "Acreditas no Filho do Homem? … Quem é, Senhor, para que eu creia nele?… Tu o estás vendo: é aquele que está falando contigo!"

2. Deus envia ao mundo seu Filho como expressão máxima de sua bondade. Jesus se solidariza com as pessoas necessitadas e oferece-lhes uma vida saudável e íntegra: cura a cegueira, liberta o ser humano de toda espécie de opressão e ilumina o caminho dos que se encontram desorientados.

3. Jesus, em caminhada, vê o cego de nascença e toma a iniciativa de curá-lo. Ele o faz usando dois elementos: terra e saliva. Formam o barro, que lembra a criação no Gênesis: "Deus modelou o homem do barro" (2,7). A ação de Jesus visa recriar a pessoa, oferecendo-lhe vida nova. Conforme o pensamento da época, a saliva transmitia a energia vital da pessoa. Portanto, a energia divina de Jesus realiza a cura.

4. O evangelho de João aprofunda a identidade de Jesus narrando sete sinais. O sexto sinal é a cura do cego de nascença. A função dos sinais é dar a conhecer quem é Jesus, provocando uma tomada de posição a favor de Jesus e da vida (fé) ou contra ele e a favor da morte (rejeição).

5. O contexto do sexto sinal é: a festa das Tendas (cap.7) e a festa da dedicação(cap. 10).

5.1. Na festa das Tendas, o povo recordava o tempo do deserto. Era um acontecimento festivo que suscitava esperança nos sofredores. Nesse dia, o sacerdote ia tirar água da fonte Gion para com ela purificar o altar (note a oposição Gion x Siloé). À noi-te acendiam-se tochas sobre os muros a fim de iluminar a cidade. Detalhes esses im-portantes porque a cura do cego de nascença mostra que Jesus é a água que lava das cegueiras das alienações e a luz que faz brilhar os olhos da fé.

De fato, a cegueira lembra a alienação e o pecado. E o lavar-se na piscina recorda a imersão na água, sendo a luz símbolo da fé (os primeiros cristãos chamavam o Batismo de iluminação).

5.2. Na festa da dedicação liam-se textos do A.T. que falavam de Javé-pastor (p.ex. Ez. 34). Nesse sentido, o cego curado é a ovelha que Jesus tira do "curral" em que se encontrava.

6. O evangelho de João foi escrito quando os cristãos estavam envolvidos em graves dificuldades causadas pela hostilidade das lideranças político-religiosas judaicas e do império romano.

7. veremos: a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

b. libertando das trevas – vv. 6-7

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

8. O cego (símbolo do povo oprimido) é vítima de preconceitos religiosos com graves conseqüências sociais. O cego de nascença é um castigado por Deus. Alguém pecou e está pagando por isso (Ex. 20,5; 34,7). A sociedade estabelecida gerou esse preconceito e a única coisa que o cego pode fazer é pedir esmola (v .8): assim se perpetua sua dependência. Ainda mais. As elites intelectuais criaram uma teoria de que o feto podia, no seio da mãe, transgredir a lei de Deus. Mas Jesus vem manifestar as obras do Deus que o enviou: liberta os que viveram desde seu nascimento na alienação, na dependência e na opressão (v.3).

9. Jesus devolve à vida, devolve à luz: "enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo"(v.5). Este versículo se insere bem dentro da festa das Tendas (acendiam-se as tochas para iluminar…).

b. libertando das trevas – vv. 6-7

10. Isaías havia anunciado que o servo de Javé iria abrir os olhos dos cegos (Is 35,5: os olhos do cego se abrirão; 42,7: para que abras os olhos dos cegos; 49,6: te estabeleci como luz das nações; e o Sl. 146,8: Javé abre os olhos ao cego"). Jesus é esse servo que capacita as pessoas para enxergar as coisas (uma visão superficial) e sobretudo as situações que alienam e marginalizam (uma visão crítica). O gesto de Jesus é audacioso, pois transgride a instituição mais apreciada, a do repouso sabático (faz barro e unge – cf. 1ª. leitura) e ensina a transgredi-la quando a vida está em jogo (manda lavar-se).

11. A ordem de lavar-se na piscina de Siloé (que significa enviado) apresenta o caráter de novidade de toda a narração: nossas cegueiras começam a desaparecer quando nos lavamos naquele que o pai enviou. Aí nasce o homem novo (associe barro com a criação de Gn 2). Jesus é a água que lava e purifica e todos são convidados a se aproximar dessa fonte: lavar-se e purificar-se para enxergar.

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

12. Agora as atenções se voltam para o cego ungido, lavado e curado que se tornou discípulo. Aquele que fora cego procede por etapas: começa reconhecendo que - Jesus é homem (v. 11), isto é, alguém que sente em profundidade os anseios do ser humano (é o que faltava às classes religiosas constituídas do templo).

Depois progride na descoberta de- Jesus como servo enviado por Deus (v. 15; compare com Is. 42,6 e 49,6),- de Jesus como profeta (v. 17),- como aquele que vem de Deus (v.33), Filho do Homem,- e finalmente, Senhor, ajoelhando-se diante de Jesus (v.38).

13. A essas etapas de crescimento na fé corresponde a rejeição sistemática e crescente das autoridades religiosas daquele tempo.
13.1. O "cego curado" reconhece que Jesus é aquele ser humano. A essa primeira profissão de fé os fariseus respondem que Jesus não é humano por não respeitar as instituições. E o consideram pecador por colocar a vida acima da lei. Essa posição dos fariseus é a raiz da rejeição que culmina na morte de Jesus.

13.2. O discípulo afirma que Jesus é um profeta. Aí eles se agarram à tradição, e expulsam o homem da sociedade. Rejeitando o cego curado, rejeitam o próprio Jesus e a possibilidade de libertação. Não admitem que o povo – representado pelo cego – tenha uma visão crítica da sociedade (e de seus governantes) que o mantém na alienação.

14. O discípulo avança na fé em meio aos conflitos.

14.1. Primeiro vem a desconfiança dos vizinhos que antes viam o cego pedindo esmola (v. 8). O "cego curado" testemunha que é ele mesmo (v.9) e anuncia quem o libertou (v. 11). É o 1º. passo na fé.

14.2. Segundo: o conflito assume tons mais graves diante do inquérito dos fariseus (13-17), que sustentam um sistema que não permite que as pessoas se libertem (se desalienem, se curem da cegueira) e tenham acesso à vida. Os fariseus acusam Jesus de transgredir a lei e de ser pecador. E o cego curado responde com um testemunho corajoso: ele é um profeta! É o 2º passo na fé.

15. O inquérito se avoluma (vv. 18-23).

15.1. Os fariseus interrogam os pais daquele que fora cego. Estes, com medo de ser expulsos da sinagoga (vv. 22-23), não querem se comprometer e põem toda responsabilidade no filho.

É o 1º. risco: ter os laços familiares cortados por causa do testemunho.

15.2. O desfecho e o ponto alto do inquérito (vv.24-34) apresentam uma situação dramática: o curado é posto em xeque-mate: "Dá glória a Deus!" (= juramento).

15.3. O debate mostra quem é discípulo de Jesus e quem é seu adversário. O texto insiste no verbo "saber", e cada qual reafirma suas posições.

É o 3º. passo na fé: confessar que Jesus vem de Deus.

E é também o 2º. maior risco: ser excomungado (v. 34).

15.4. No AT não se verifica nenhuma cura de cego. Simplesmente se afirma que será tarefa do Servo de Javé (Is. 42,7). Mas as lideranças judaicas, – que sabiam disso, -tentam de todas as formas negar os fatos

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

16. Interessante notar que o cego "acredita mesmo, de verdade" em Jesus: quando ele lhe diz "vai lavar-te na piscina de Siloé…. o cego foi, lavou-se e voltou" para Jesus (v.6). A fé o faz realizar a palavra do Senhor e voltar à sua presença. No final do relato e após os inúmeros percalços Jesus vai ao encontro do "cego curado" e diz-lhe: "crês no Filho do Homem?"… Quem é, Senhor, para que eu nele creia?" … Tu o estás vendo, é quem fala contigo … Creio, Senhor!" (v. 35-38).

17. Situações antagônicas:

17.1. De um lado um homem simples e aberto a Deus: fé – encontro – presença – ida -volta – confiança na palavra e na pessoa – entrega – compromisso – testemunho -vida nova – homem novo.

17.2. De outro lado, homens cheios de si e de poder: não vêem, não querem ver e impedem quem quer ver. "Já vos disse e não ouvistes… isso é espantoso: vós não sabeis de onde ele é, e no entanto, ele abriu-me os olhos! … sabemos que Deus não ouve os pecadores… jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença… se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer" (vv. 27.30.31.32.33).

18. No encontro com Jesus (fora da instituição que o mantinha na cegueira e na mendicância -fora expulso) o cego curado dá o último e definitivo passo na fé: "Eu creio, Senhor!", e ajoelhou-se e prostrou-se diante de Jesus (v. 38).

19. Jesus veio a este mundo para o julgamento: para que vejam os que não vêem e os que vêem se tornem cegos (v. 39). João 3,18 afirma: "quem acredita nele não está condenado, quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do filho único de Deus". Os fariseus, crentes e auto-suficientes em deter Deus em suas mãos, se fecham à ação de Deus. Tornam-se assim cegos de tal cegueira que não conseguem ver nem a ação de Jesus nem o testemunho dos discípulos. E é nesse confronto justa-mente que se realiza o julgamento: "se vocês fossem cegos não teriam pecado. Mas como dizem que enxergam, o seu pecado permanece" (v.41). Este é o ponto alto em que Jesus desmascara e desqualifica os que mantêm o povo na cegueira da alienação, impedindo-o de ter acesso à Vida.

1ª leitura: 1Sm. 16, 1b . 6-7 . 10-13a

20. A unção de Davi é um acontecimento importante na história do povo de Deus e contrasta com a escolha de Saul. Saul era filho de um homem poderoso que criava jumentas e possuía empregados (1Sm. 9,1) e Davi, ao contrário, é o último dos oito filhos de Jessé e cuida do rebanho de ovelhas de seu pai (1Sm. 16,11a).

21. Saul descontentou a todos por causa da sua má administração política e acessos de loucura. Por isso, Javé o rejeitou, enviando Samuel para ungir Davi (16,1.13). Davi começou a organizar todos os que se achavam em dificuldades, endividados e descontentes (22,2). Surgia assim um novo poder, o poder popular que atende ao clamor dos necessitados.

22. O texto de hoje quer sublinhar que Deus não se deixa enganar pelas aparências. Samuel fica impressionado com o porte atlético de Eliab, o filho mais velho de Jessé. Também de Saul se diz que "dos ombros para cima era mais alto que todos" (9,2). Os critérios de Javé são outros: "não se impressione com sua aparência, com sua grande estatura, porque não o escolhi. Deus não olha como o homem: o homem vê o rosto, mas Deus vê o coração" (v.7). Deus não se engana pelas aparências e escolhe os últimos, pois é a partir deles que irá consolidar a justiça e o direito no meio de seu povo.

23. Samuel entendeu a lição. Tanto que não se sentaram à mesa para participar do sacrifício de comunhão até que o último não tivesse chegado (v.11b). Deus escolhe os últimos.

2ª leitura: Ef. 5, 8-14

24. Os capítulos 4-6 de Efésios formam a parte exortativa da carta. Caracterizam-se pela insistência em viver de acordo com a vocação a que fomos chamados. O v. 14, pertencente a um hino litúrgico, é que faz a ligação: "desperta, tu que dormes; levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará!"

25. A partir desse dado, Paulo focaliza a incompatibilidade entre trevas e luz, entre sono e estar acordado, entre segredo e denúncia. Pelo batismo os cristãos passaram das trevas para a luz. São luz enquanto permanecem no Senhor (v.8). E Paulo mostra as decorrências disso: "o fruto da luz é toda espécie de bondade, justiça e verdade" (v.9).

26. Trata-se de três dimensões que abraçam toda a vida da pessoa. Já no AT, particularmente nos profetas, bondade-justiça-verdade eram a síntese das relações justas e fraternas que traduzem o projeto de Deus na vida das pessoas. Essas dimensões regem a vida das pessoas e da comunidade. Por isso, ser luz no Senhor pressupõe rejeitar e denunciar as obras da escuridão, que envolvem as pessoas e a sociedade no egoísmo, na injustiça, na mentira. Bondade-justiça-verdade x egoísmo-injustiça-mentira! É questão de escolha!

27. Paulo não pretende afirmar que os cristãos detêm o monopólio da verdade, da justiça e da bondade e que o mundo pagão seja totalmente mau. Todavia, a sociedade dos destinatários da carta era marcada por deuses viciados, isto é, ídolos disfarçados de deuses mantenedores da maldade, da injustiça e da mentira. Assim sendo, a maldade, a injustiça e a mentira eram cultuadas.

28. A proposta do texto é denunciar e desmascarar esse sistema: "tudo o que é desmascarado é manifestado pela luz (v.13). Os cristãos e a Igreja também tem disfarces. Urge, portanto, "levantar-se dentre os mortos e ser iluminado pelo Cristo"(v.14).

Refletindo

1. Assim como o penúltimo domingo do advento é o quarto domingo da quaresma: o domingo da alegria. "Alegra-te Jerusalém, porque tua salvação superará a tristeza" é o canto de entrada que nos associa aos judeus que subiam em romaria a Jerusalém. O paramento litúrgico é rosa ( pois sua origem coincide com a tradicional festa das rosas, na Itália). Enchemo-nos de alegria com a renovação interior que a Quaresma nos traz e que dá força para continuar o caminho.

2. A alegria, que a liturgia evoca, é a da luz de Cristo que iluminará os que vão receber o batismo na noite pascal. Receber o banho no "Enviado" para receber nova visão. O batismo, na Igreja primitiva, era chamado "iluminação": iluminados por Cristo para uma vida nova.

3. A 1ª leitura apresenta a unção do rei Davi. Destacando a dignidade de rei e sacerdote, nos lembra Cristo-Ungido-Messias (Cristo significa Ungido e em hebraico, Messias), e ao mesmo tempo, nossa unção batismal em Cristo. Assim na liturgia batismal, o fiel é ungido em sinal de que ele é "Cristo com Cristo", membro do povo messiânico, luz que deve iluminar as trevas ao seu derredor. Ungido com Cristo para participar da missão do Cristo, profeta, sacerdote e rei. Nossa missão de cristãos hoje em dia nos faz sentir-nos "ungidos", "marcados com um sinal" para alguma coisa? Não para sermos "diferentes", mas para sermos os renovadores, os que dão um sentido novo a esse mundo e a essa natureza.

4. "Vai lavar-te na piscina do Enviado… foi… lavou-se… e voltou enxergando!" (v.6). O cego obedece a Palavra de Deus (para obedecer ou seguir uma palavra é preciso interiorizá-la), tem plena confiança (fé) naquele homem Enviado por Deus, e realiza o que ele mandou. Da fé nasce o milagre: voltou enxergando. Duas coisas importantes não podem passar desapercebidas: a fé e a entrega total nas mãos e nas palavras daquele homem (são elas que operam a maravilha de Deus). … e não dá para esquecer que ele volta para agradecer.

5. Qual a reação do cego? Volta deslumbrado com a visão que lhe fora devolvida por aquele homem que ele vai professar profeta, enviado de Deus e Senhor. Enquanto isso a multidão dos "curiosos" (como sempre!) – incrédula – ficou fazendo perguntinhas e respostinhas. Acreditar mesmo que é bom, nada! É preciso chegar perto do Senhor para deixar-se "iluminar" pela sua luz, para banir nossas escuridões (e coisas mais…). Quem não se encontra pessoalmente com o Senhor Jesus Ressuscitado (que antes passou pela morte!) não consegue ver a "luz", a vida nova que brota da sua Palavra e que renova e plenifica a vida.

6. Para que aconteça a vida nova é preciso antes ouvir a Palavra de Deus, depois interiorizá-la, depois colocá-la em prática. Se assim não for, nada acontece. Encontrar-se com Jesus, ouvi-lo, acolhê-lo, ir lavar-se (limpar-se, esvaziar-se de si e de tudo o que não presta)… e aí, sim, acontece (acende-se) a Luz de Cristo que transforma e dá sentido novo e pleno à nossa vida. Bem-aventurados os puros de coração… porque "verão" a Deus.

7. O sentido profundo de tudo isso é que o batizado deve ser uma testemunha da luz que recebeu. O cego de nascença nos dá o exemplo: ele testemunha o Cristo, com convicção e firmeza sempre crescente. O batizado é o homem da luz (filho da luz, diz a Bíblia), alguém que enxerga com clareza (sabe o sentido das coisas e da vida) e que anda na Luz. Pois a luz não é só para ser contemplada, mas para caminharmos nela, realizando as obras que ela nos permite enxergar e levar a termo. "Outrora, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor… Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará" (2ª.leitura).

8. Jesus abre os olhos ao cego de nascença pelas águas de Siloé. Jesus cura um cego, mas a cura só é completa na profissão de fé: é preciso ver Deus em Jesus Cristo. O presente evangelho -narra a cura (vv.1-7); -narra o amadurecimento da fé no confronto com a incredulidade e a repressão (vv. 8-34) e -narra a auto-revelação de Cristo como resposta à busca do cego e à sua profissão de fé (vv.35-39). A auto-revelação de Cristo é: "Eu sou a luz do mundo" (8,12). O cego consegue ver esta luz e torna-se "filho da luz" (12,36). Os fariseus (que se diziam sábios e conhecedores da lei e que viam) se recusam a ver a luz que veio ao mundo: eles são os verdadeiros cegos. Assim a luz se transforma, para eles, em julgamento e condenação. Eles não querem fazer o que o cego fez: acreditar e aceitar Jesus Cristo!

9. Fica sempre a liberdade de decisão e de escolha: com o cego ou com os fariseus. Não dá para ficar neutro.

10. O Senhor é a luz do mundo, quem o segue não anda nas trevas!

Iluminai, Senhor, os nossos corações com o esplendor da vossa graça!

O Senhor é o pastor que me conduz...

Ele me guia no caminho mais seguro...

prof. Ângelo Vitório Zambon

1. "Acreditas no Filho do Homem? … Quem é, Senhor, para que eu creia nele?… Tu o estás vendo: é aquele que está falando contigo!"

2. Deus envia ao mundo seu Filho como expressão máxima de sua bondade. Jesus se solidariza com as pessoas necessitadas e oferece-lhes uma vida saudável e íntegra: cura a cegueira, liberta o ser humano de toda espécie de opressão e ilumina o caminho dos que se encontram desorientados.

3. Jesus, em caminhada, vê o cego de nascença e toma a iniciativa de curá-lo. Ele o faz usando dois elementos: terra e saliva. Formam o barro, que lembra a criação no Gênesis: "Deus modelou o homem do barro" (2,7). A ação de Jesus visa recriar a pessoa, oferecendo-lhe vida nova. Conforme o pensamento da época, a saliva transmitia a energia vital da pessoa. Portanto, a energia divina de Jesus realiza a cura.

4. O evangelho de João aprofunda a identidade de Jesus narrando sete sinais. O sexto sinal é a cura do cego de nascença. A função dos sinais é dar a conhecer quem é Jesus, provocando uma tomada de posição a favor de Jesus e da vida (fé) ou contra ele e a favor da morte (rejeição).

5. O contexto do sexto sinal é: a festa das Tendas (cap.7) e a festa da dedicação(cap. 10).

5.1. Na festa das Tendas, o povo recordava o tempo do deserto. Era um acontecimento festivo que suscitava esperança nos sofredores. Nesse dia, o sacerdote ia tirar água da fonte Gion para com ela purificar o altar (note a oposição Gion x Siloé). À noi-te acendiam-se tochas sobre os muros a fim de iluminar a cidade. Detalhes esses im-portantes porque a cura do cego de nascença mostra que Jesus é a água que lava das cegueiras das alienações e a luz que faz brilhar os olhos da fé.

De fato, a cegueira lembra a alienação e o pecado. E o lavar-se na piscina recorda a imersão na água, sendo a luz símbolo da fé (os primeiros cristãos chamavam o Batismo de iluminação).

5.2. Na festa da dedicação liam-se textos do A.T. que falavam de Javé-pastor (p.ex. Ez. 34). Nesse sentido, o cego curado é a ovelha que Jesus tira do "curral" em que se encontrava.

6. O evangelho de João foi escrito quando os cristãos estavam envolvidos em graves dificuldades causadas pela hostilidade das lideranças político-religiosas judaicas e do império romano.

7. veremos: a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

b. libertando das trevas – vv. 6-7

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

a. quebrando os preconceitos – vv. 1-5

8. O cego (símbolo do povo oprimido) é vítima de preconceitos religiosos com graves conseqüências sociais. O cego de nascença é um castigado por Deus. Alguém pecou e está pagando por isso (Ex. 20,5; 34,7). A sociedade estabelecida gerou esse preconceito e a única coisa que o cego pode fazer é pedir esmola (v .8): assim se perpetua sua dependência. Ainda mais. As elites intelectuais criaram uma teoria de que o feto podia, no seio da mãe, transgredir a lei de Deus. Mas Jesus vem manifestar as obras do Deus que o enviou: liberta os que viveram desde seu nascimento na alienação, na dependência e na opressão (v.3).

9. Jesus devolve à vida, devolve à luz: "enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo"(v.5). Este versículo se insere bem dentro da festa das Tendas (acendiam-se as tochas para iluminar…).

b. libertando das trevas – vv. 6-7

10. Isaías havia anunciado que o servo de Javé iria abrir os olhos dos cegos (Is 35,5: os olhos do cego se abrirão; 42,7: para que abras os olhos dos cegos; 49,6: te estabeleci como luz das nações; e o Sl. 146,8: Javé abre os olhos ao cego"). Jesus é esse servo que capacita as pessoas para enxergar as coisas (uma visão superficial) e sobretudo as situações que alienam e marginalizam (uma visão crítica). O gesto de Jesus é audacioso, pois transgride a instituição mais apreciada, a do repouso sabático (faz barro e unge – cf. 1ª. leitura) e ensina a transgredi-la quando a vida está em jogo (manda lavar-se).

11. A ordem de lavar-se na piscina de Siloé (que significa enviado) apresenta o caráter de novidade de toda a narração: nossas cegueiras começam a desaparecer quando nos lavamos naquele que o pai enviou. Aí nasce o homem novo (associe barro com a criação de Gn 2). Jesus é a água que lava e purifica e todos são convidados a se aproximar dessa fonte: lavar-se e purificar-se para enxergar.

c. o discípulo em meio aos conflitos – vv. 8-34

12. Agora as atenções se voltam para o cego ungido, lavado e curado que se tornou discípulo. Aquele que fora cego procede por etapas: começa reconhecendo que - Jesus é homem (v. 11), isto é, alguém que sente em profundidade os anseios do ser humano (é o que faltava às classes religiosas constituídas do templo).

Depois progride na descoberta de- Jesus como servo enviado por Deus (v. 15; compare com Is. 42,6 e 49,6),- de Jesus como profeta (v. 17),- como aquele que vem de Deus (v.33), Filho do Homem,- e finalmente, Senhor, ajoelhando-se diante de Jesus (v.38).

13. A essas etapas de crescimento na fé corresponde a rejeição sistemática e crescente das autoridades religiosas daquele tempo.
13.1. O "cego curado" reconhece que Jesus é aquele ser humano. A essa primeira profissão de fé os fariseus respondem que Jesus não é humano por não respeitar as instituições. E o consideram pecador por colocar a vida acima da lei. Essa posição dos fariseus é a raiz da rejeição que culmina na morte de Jesus.

13.2. O discípulo afirma que Jesus é um profeta. Aí eles se agarram à tradição, e expulsam o homem da sociedade. Rejeitando o cego curado, rejeitam o próprio Jesus e a possibilidade de libertação. Não admitem que o povo – representado pelo cego – tenha uma visão crítica da sociedade (e de seus governantes) que o mantém na alienação.

14. O discípulo avança na fé em meio aos conflitos.

14.1. Primeiro vem a desconfiança dos vizinhos que antes viam o cego pedindo esmola (v. 8). O "cego curado" testemunha que é ele mesmo (v.9) e anuncia quem o libertou (v. 11). É o 1º. passo na fé.

14.2. Segundo: o conflito assume tons mais graves diante do inquérito dos fariseus (13-17), que sustentam um sistema que não permite que as pessoas se libertem (se desalienem, se curem da cegueira) e tenham acesso à vida. Os fariseus acusam Jesus de transgredir a lei e de ser pecador. E o cego curado responde com um testemunho corajoso: ele é um profeta! É o 2º passo na fé.

15. O inquérito se avoluma (vv. 18-23).

15.1. Os fariseus interrogam os pais daquele que fora cego. Estes, com medo de ser expulsos da sinagoga (vv. 22-23), não querem se comprometer e põem toda responsabilidade no filho.

É o 1º. risco: ter os laços familiares cortados por causa do testemunho.

15.2. O desfecho e o ponto alto do inquérito (vv.24-34) apresentam uma situação dramática: o curado é posto em xeque-mate: "Dá glória a Deus!" (= juramento).

15.3. O debate mostra quem é discípulo de Jesus e quem é seu adversário. O texto insiste no verbo "saber", e cada qual reafirma suas posições.

É o 3º. passo na fé: confessar que Jesus vem de Deus.

E é também o 2º. maior risco: ser excomungado (v. 34).

15.4. No AT não se verifica nenhuma cura de cego. Simplesmente se afirma que será tarefa do Servo de Javé (Is. 42,7). Mas as lideranças judaicas, – que sabiam disso, -tentam de todas as formas negar os fatos

d. a instituição é cega e caminha para a morte – vv. 35-41

16. Interessante notar que o cego "acredita mesmo, de verdade" em Jesus: quando ele lhe diz "vai lavar-te na piscina de Siloé…. o cego foi, lavou-se e voltou" para Jesus (v.6). A fé o faz realizar a palavra do Senhor e voltar à sua presença. No final do relato e após os inúmeros percalços Jesus vai ao encontro do "cego curado" e diz-lhe: "crês no Filho do Homem?"… Quem é, Senhor, para que eu nele creia?" … Tu o estás vendo, é quem fala contigo … Creio, Senhor!" (v. 35-38).

17. Situações antagônicas:

17.1. De um lado um homem simples e aberto a Deus: fé – encontro – presença – ida -volta – confiança na palavra e na pessoa – entrega – compromisso – testemunho -vida nova – homem novo.

17.2. De outro lado, homens cheios de si e de poder: não vêem, não querem ver e impedem quem quer ver. "Já vos disse e não ouvistes… isso é espantoso: vós não sabeis de onde ele é, e no entanto, ele abriu-me os olhos! … sabemos que Deus não ouve os pecadores… jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença… se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer" (vv. 27.30.31.32.33).

18. No encontro com Jesus (fora da instituição que o mantinha na cegueira e na mendicância -fora expulso) o cego curado dá o último e definitivo passo na fé: "Eu creio, Senhor!", e ajoelhou-se e prostrou-se diante de Jesus (v. 38).

19. Jesus veio a este mundo para o julgamento: para que vejam os que não vêem e os que vêem se tornem cegos (v. 39). João 3,18 afirma: "quem acredita nele não está condenado, quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do filho único de Deus". Os fariseus, crentes e auto-suficientes em deter Deus em suas mãos, se fecham à ação de Deus. Tornam-se assim cegos de tal cegueira que não conseguem ver nem a ação de Jesus nem o testemunho dos discípulos. E é nesse confronto justa-mente que se realiza o julgamento: "se vocês fossem cegos não teriam pecado. Mas como dizem que enxergam, o seu pecado permanece" (v.41). Este é o ponto alto em que Jesus desmascara e desqualifica os que mantêm o povo na cegueira da alienação, impedindo-o de ter acesso à Vida.

1ª leitura: 1Sm. 16, 1b . 6-7 . 10-13a

20. A unção de Davi é um acontecimento importante na história do povo de Deus e contrasta com a escolha de Saul. Saul era filho de um homem poderoso que criava jumentas e possuía empregados (1Sm. 9,1) e Davi, ao contrário, é o último dos oito filhos de Jessé e cuida do rebanho de ovelhas de seu pai (1Sm. 16,11a).

21. Saul descontentou a todos por causa da sua má administração política e acessos de loucura. Por isso, Javé o rejeitou, enviando Samuel para ungir Davi (16,1.13). Davi começou a organizar todos os que se achavam em dificuldades, endividados e descontentes (22,2). Surgia assim um novo poder, o poder popular que atende ao clamor dos necessitados.

22. O texto de hoje quer sublinhar que Deus não se deixa enganar pelas aparências. Samuel fica impressionado com o porte atlético de Eliab, o filho mais velho de Jessé. Também de Saul se diz que "dos ombros para cima era mais alto que todos" (9,2). Os critérios de Javé são outros: "não se impressione com sua aparência, com sua grande estatura, porque não o escolhi. Deus não olha como o homem: o homem vê o rosto, mas Deus vê o coração" (v.7). Deus não se engana pelas aparências e escolhe os últimos, pois é a partir deles que irá consolidar a justiça e o direito no meio de seu povo.

23. Samuel entendeu a lição. Tanto que não se sentaram à mesa para participar do sacrifício de comunhão até que o último não tivesse chegado (v.11b). Deus escolhe os últimos.

2ª leitura: Ef. 5, 8-14

24. Os capítulos 4-6 de Efésios formam a parte exortativa da carta. Caracterizam-se pela insistência em viver de acordo com a vocação a que fomos chamados. O v. 14, pertencente a um hino litúrgico, é que faz a ligação: "desperta, tu que dormes; levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará!"

25. A partir desse dado, Paulo focaliza a incompatibilidade entre trevas e luz, entre sono e estar acordado, entre segredo e denúncia. Pelo batismo os cristãos passaram das trevas para a luz. São luz enquanto permanecem no Senhor (v.8). E Paulo mostra as decorrências disso: "o fruto da luz é toda espécie de bondade, justiça e verdade" (v.9).

26. Trata-se de três dimensões que abraçam toda a vida da pessoa. Já no AT, particularmente nos profetas, bondade-justiça-verdade eram a síntese das relações justas e fraternas que traduzem o projeto de Deus na vida das pessoas. Essas dimensões regem a vida das pessoas e da comunidade. Por isso, ser luz no Senhor pressupõe rejeitar e denunciar as obras da escuridão, que envolvem as pessoas e a sociedade no egoísmo, na injustiça, na mentira. Bondade-justiça-verdade x egoísmo-injustiça-mentira! É questão de escolha!

27. Paulo não pretende afirmar que os cristãos detêm o monopólio da verdade, da justiça e da bondade e que o mundo pagão seja totalmente mau. Todavia, a sociedade dos destinatários da carta era marcada por deuses viciados, isto é, ídolos disfarçados de deuses mantenedores da maldade, da injustiça e da mentira. Assim sendo, a maldade, a injustiça e a mentira eram cultuadas.

28. A proposta do texto é denunciar e desmascarar esse sistema: "tudo o que é desmascarado é manifestado pela luz (v.13). Os cristãos e a Igreja também tem disfarces. Urge, portanto, "levantar-se dentre os mortos e ser iluminado pelo Cristo"(v.14).

Refletindo

1. Assim como o penúltimo domingo do advento é o quarto domingo da quaresma: o domingo da alegria. "Alegra-te Jerusalém, porque tua salvação superará a tristeza" é o canto de entrada que nos associa aos judeus que subiam em romaria a Jerusalém. O paramento litúrgico é rosa ( pois sua origem coincide com a tradicional festa das rosas, na Itália). Enchemo-nos de alegria com a renovação interior que a Quaresma nos traz e que dá força para continuar o caminho.

2. A alegria, que a liturgia evoca, é a da luz de Cristo que iluminará os que vão receber o batismo na noite pascal. Receber o banho no "Enviado" para receber nova visão. O batismo, na Igreja primitiva, era chamado "iluminação": iluminados por Cristo para uma vida nova.

3. A 1ª leitura apresenta a unção do rei Davi. Destacando a dignidade de rei e sacerdote, nos lembra Cristo-Ungido-Messias (Cristo significa Ungido e em hebraico, Messias), e ao mesmo tempo, nossa unção batismal em Cristo. Assim na liturgia batismal, o fiel é ungido em sinal de que ele é "Cristo com Cristo", membro do povo messiânico, luz que deve iluminar as trevas ao seu derredor. Ungido com Cristo para participar da missão do Cristo, profeta, sacerdote e rei. Nossa missão de cristãos hoje em dia nos faz sentir-nos "ungidos", "marcados com um sinal" para alguma coisa? Não para sermos "diferentes", mas para sermos os renovadores, os que dão um sentido novo a esse mundo e a essa natureza.

4. "Vai lavar-te na piscina do Enviado… foi… lavou-se… e voltou enxergando!" (v.6). O cego obedece a Palavra de Deus (para obedecer ou seguir uma palavra é preciso interiorizá-la), tem plena confiança (fé) naquele homem Enviado por Deus, e realiza o que ele mandou. Da fé nasce o milagre: voltou enxergando. Duas coisas importantes não podem passar desapercebidas: a fé e a entrega total nas mãos e nas palavras daquele homem (são elas que operam a maravilha de Deus). … e não dá para esquecer que ele volta para agradecer.

5. Qual a reação do cego? Volta deslumbrado com a visão que lhe fora devolvida por aquele homem que ele vai professar profeta, enviado de Deus e Senhor. Enquanto isso a multidão dos "curiosos" (como sempre!) – incrédula – ficou fazendo perguntinhas e respostinhas. Acreditar mesmo que é bom, nada! É preciso chegar perto do Senhor para deixar-se "iluminar" pela sua luz, para banir nossas escuridões (e coisas mais…). Quem não se encontra pessoalmente com o Senhor Jesus Ressuscitado (que antes passou pela morte!) não consegue ver a "luz", a vida nova que brota da sua Palavra e que renova e plenifica a vida.

6. Para que aconteça a vida nova é preciso antes ouvir a Palavra de Deus, depois interiorizá-la, depois colocá-la em prática. Se assim não for, nada acontece. Encontrar-se com Jesus, ouvi-lo, acolhê-lo, ir lavar-se (limpar-se, esvaziar-se de si e de tudo o que não presta)… e aí, sim, acontece (acende-se) a Luz de Cristo que transforma e dá sentido novo e pleno à nossa vida. Bem-aventurados os puros de coração… porque "verão" a Deus.

7. O sentido profundo de tudo isso é que o batizado deve ser uma testemunha da luz que recebeu. O cego de nascença nos dá o exemplo: ele testemunha o Cristo, com convicção e firmeza sempre crescente. O batizado é o homem da luz (filho da luz, diz a Bíblia), alguém que enxerga com clareza (sabe o sentido das coisas e da vida) e que anda na Luz. Pois a luz não é só para ser contemplada, mas para caminharmos nela, realizando as obras que ela nos permite enxergar e levar a termo. "Outrora, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor… Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará" (2ª.leitura).

8. Jesus abre os olhos ao cego de nascença pelas águas de Siloé. Jesus cura um cego, mas a cura só é completa na profissão de fé: é preciso ver Deus em Jesus Cristo. O presente evangelho -narra a cura (vv.1-7); -narra o amadurecimento da fé no confronto com a incredulidade e a repressão (vv. 8-34) e -narra a auto-revelação de Cristo como resposta à busca do cego e à sua profissão de fé (vv.35-39). A auto-revelação de Cristo é: "Eu sou a luz do mundo" (8,12). O cego consegue ver esta luz e torna-se "filho da luz" (12,36). Os fariseus (que se diziam sábios e conhecedores da lei e que viam) se recusam a ver a luz que veio ao mundo: eles são os verdadeiros cegos. Assim a luz se transforma, para eles, em julgamento e condenação. Eles não querem fazer o que o cego fez: acreditar e aceitar Jesus Cristo!

9. Fica sempre a liberdade de decisão e de escolha: com o cego ou com os fariseus. Não dá para ficar neutro.

10. O Senhor é a luz do mundo, quem o segue não anda nas trevas!

Iluminai, Senhor, os nossos corações com o esplendor da vossa graça!

O Senhor é o pastor que me conduz...

Ele me guia no caminho mais seguro...

prof. Ângelo Vitório Zambon

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O CEGO FOI, LAVOU-SE E VOLTOU ENXERGANDO

 

Domingo, 3 de abril de 2011

 

4º Domingo da Quaresma

 

Santos do Dia: Ágape, Quione e Irene (virgens, mártires de Tessalônica), Atala de Taormina (abade), Burgundófara (virgem, abadessa), Evágrio e Benigno (mártires de Tomi, no Mar Negro), Nicetas de Medikion (abade), Pancrácio de Taormina (bispo, mártir), Ricardo Backedine (bispo de Chichester), Sixto I (papa, mártir), Vulpiano de Tiro (mártir).

 

Primeira leitura: Samuel 16,1b.6-7.10-13a
Davi é ungido rei de Israel

Salmo responsorial: Salmo 22(23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)

O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma

Segunda leitura: Efésios 5,8-14
Levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá

Evangelho: João 9,1-41

O cego foi, lavou-se e voltou enxergando

 

O povo de Deus propôs-se, desde o tempo passado, um grande problema: como saber quem é o enviado de Deus? Muitos apareciam fazendo alarde de suas habilidades físicas, de sua astucia, de sua sabedoria, inclusive, de sua profunda religiosidade, porém era muito difícil saber quem procedia de acordo com a vontade do Senhor e quem queria ser líder unicamente para obter o poder.


Na época de Samuel, a situação era realmente complicada. O profeta, movido pelo Espírito de Deus, buscou um líder que tirasse o povo da difícil situação de crise interna das instituições tribais e da ameaça dos filisteus. Surgiu Saul, um rapaz distinto, de boa família e de extraordinária compleição física. Os hebreus mais cautelosos o apoiaram de imediato, esperando que o novo rei conseguisse controlar o avanço dos filisteus. Contudo, o novo rei, em pouco tempo, se converteu em um tirano insuportável que fez com que se agravasse o conflito interno e que, por suas constantes mudanças de comportamento, comprometeu seriamente a segurança das terras cultiváveis.


Samuel, então, pensou que a solução era ungir um novo rei, uma pessoa na qual se poderia confiar e dar conta da situação. A unção profética se converteu, naquele momento, no meio pelo qual se legitimava a ação de um novo líder "salvador" do povo.


Séculos mais tarde, os profetas deram-se cota de que não bastava mudar o rei para mudar a situação, mas que era necessário buscar um sistema social que respeitasse os ideais tribais, o que logo se chamou 'o direito divino'. Contudo, subsistiu a idéia de que o líder salvador tinha que ser designado por um profeta reconhecido. Desse modo, a unção dos reis de Israel passou a ser um símbolo de esperança em um futuro melhor, mais de acordo com os planos de Deus.


Na época do NT, o povo de Deus que habitava na Palestina, enfrentou um grande desafio: como reconhecer Jesus como ungido do Senhor? Ainda que Jesus houvesse conhecido João Batista e, logo depois, tivesse retomado sua pregação, pairava a respeito dele a dúvida, devido à sua origem humilde, à maneira tão diferente de interpretar a lei e a sua pouca vinculação com o templo e seus rituais. Muitos se recusavam em reconhecer que ele era um profeta ungido pelo Senhor, movidos simplesmente por preconceitos culturais e sociais.

A comunidade cristã teve que abrir passagem no meio destes obstáculos e proclamar a legitimidade da missão de Jesus. Somente quem conhecesse a obra do Nazareno, seu grande amor à vida, sua dedicação aos pobres, sua pregação do reinado de Deus, podia reconhecer que ele era o "ungido", o "Messias", ou o Cristo.

Os sinais e prodígios que Jesus realizava no meio do povo pobre causavam grande impacto e, por isso, foram motivo de controvérsia. Os opositores do cristianismo viam nas curas que Jesus realizava simplesmente o agir de um curandeiro. Seus discípulos, ao contrário, compreendiam todo o seu valor libertador e salvífico. Pois, não se tratava somente de colocar remédio às limitações humanas, mas de devolver-lhe toda a dignidade de ser humano.

A pessoa que recuperava a visão poderia descobrir que seu problema não era um castigo de Deus pelos pecados dos antepassados, nem uma terrível prova do destino. Era uma pessoa que passava do desespero à fé e descobria em Jesus o profeta, o ungido do Senhor. Seu problema, uma limitação física, havia sido convertida em um terrível marco social e religioso.


Porém, o problema não era sua limitação visual, mas a terrível carga de desprezo que a cultura lhe havia imposto. Jesus livra-o do insuportável peso da marginalidade social e o conduz para uma comunidade onde é aceito pelo que é, sem importar as etiquetas que os preconceitos sociais lhe haviam imposto.


No evangelho relata-se uma espécie de drama entre os vizinhos do lugar onde o cego costumava pedir esmola, os fariseus, que eram um grupo de judeus piedosos e cumpridores da lei e os "judeus" em geral, uma expressão genérica com a qual o evangelista designa as altas autoridades religiosas do povo judeu da época de Jesus. Até os pais do cego estão envolvidos no drama.


Trata-se de um verdadeiro "drama teológico", simbólico, de uma grande beleza literária. De nenhuma maneira se trata de uma narrativa ao estio jornalístico de fatos históricos, ou de um relato  e descrição ingênua  como os casos foram acontecendo. Não esqueçamos que é João quem escreve, e que seu Evangelho se move sempre em um alto nível de sofisticação, de recurso ao símbolo e usando sempre a expressão indireta.

Se temos que dirigir a palavra na homilia, convém não "contar" as coisas como quem conta fatos históricos indiscutíveis, com estivesse entretendo crianças. Os ouvintes são adultos e agradecem por serem tratados como tais, sem abusar de que se tenha a palavra em um âmbito sagrado onde, por respeito ninguém irá contradizer, e por isso se pode dizer qualquer coisa, que "tudo vale" nesse ambiente.


No drama teológico de João, o cego se converte no centro da narrativa. Todos se perguntam como é possível que um cego de nascimento seja agora capaz de ver. A suspeita que algo grande tenha acontecido, perguntam por quem o fez ver, porém não chegam a crer que Jesus seja a causa da luz dos olhos do cego que não via. Um simples homem como Jesus não parece ser capaz de realizar tais maravilhas. Menos ainda pelo fato de ter realizado a cura em dia de sábado, dia sagrado de descanso no qual os fariseus se empenhavam em guardar de maneira escrupulosa.


Pior ainda, sendo o cego um pobre que pedia esmola ao pé de uma das portas da cidade. Todos interrogavam ao pobre cego que agora vê: os vizinhos, os fariseus e os chefes do templo.


Jesus o encontra, e se faz solidário, ao saber que o pobre havia sido expulso da sinagoga judaica. E neste novo encontro com Jesus, o cego chega a "ver plenamente", a "ver", não somente a luz, mas a "gloria"de Deus, reconhecendo nele o enviado definitivo de Deus, o Filho do homem escatológico, o Senhor digno de ser adorado... É a mensagem que João nos quer transmitir narrando um drama teológico, como é seu estilo, mais que afirmando proposições abstratas, como teria feito se fosse de formação filosófica grega.


O final do evangelho de hoje, as palavras que João coloca nos lábios de Jesus fazem explodir a mensagem teológica do drama: Jesus é um juiz, é o juízo do mundo, que vem colocar o mundo de pernas pro ar: os que viam não vêem, os que não viam conseguem ver, Afinal, o que é preciso ver? Jesus. Ele é a luz que ilumina.